segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A lógica torta dos egoístas da USP.

Em colaboração com Danilo Bessa.

Quando a poeira parecia baixar, o debate sobre os protestos na USP vão tomando ares de que se alongarão. O que mais irrita nessa discussão toda é o egoísmo das reivindicações. Os poucos protestantes, indiferentes ao custo financeiro do quebra-quebra dessa birra manhosa, se mostram indiferentes a um princípio básico de quem busca apoio: solidariedade.

A USP sempre foi uma espécie de ilha com regras próprias na capital do Estado que a financia. A universidade, localizada na periferia da cidade, além da distância geográfica tinha uma legislação própria que a defendia dos rigores de uma ditadura dos anos 60 e 70. De lá pra cá, a cidade cresceu muito, o que era longe já é quase parte do centro expandido da metrópole. A universidade atualmente serve inclusive de rota de trânsito diário além de agora ainda fazer fronteira com uma favela. Ela está, enfim, quase totalmente incorporada à rotina da capital. Inclusive por isso, vieram juntos dois problemas inerentes: trânsito e violência.

Uma das exigências nos protestos é que a segurança volte a ser feita apenas pela polícia universitária, que não pode andar armada. Porém, uma coisa é você querer uma realidade de liberdade e regras próprias num ambiente agora muito mais violento. Liberdade absoluta, sabemos, não combina com total segurança. Talvez como uma memória residual do que ela representava, o temor de haver a PM por perto já não se explica mais, ao menos àqueles que respeitam as leis.

Além disso, hoje a sociedade parece entender muito melhor como a instituição se financia e quanto isso pesa em seu bolso. Como em muitos outros campos no Brasil, vivemos com uma legislação caduca se comparada ao mundo real. A proibição da PM no campus passou a ser uma idiossincrasia. Mas como se fossem crianças que não entendem o mundo real, jovens de classe média querem poder viver às margens das leis sob a argumentação de perseguição. Em que mundo eles vivem? Que regime opressor sonham em derrubar?

É preciso antes de qualquer coisa entendermos que mundo se quer. Independente de sua opinião sobre a liberação das drogas no Brasil, vale sempre lembrar que hoje ela ainda não está liberada, goste-se disso ou não. Outro argumento interessante muito citado é que o ambiente universitário da USP precisa ser algo rebelde, libertário, vanguardista, pois essas seriam algumas das enormes vantagens inerentes a uma universidade. Concordo. Porém, a realidade é diferente, essas são características intangíveis, não-palpáveis. Em uma sociedade tão desigual fica cada vez mais difícil tolerar privilégios difíceis de serem mensuráveis quando uma maior produtividade e custos mais baixos são matéria de mais fácil entendimento e aceitação.

Não à toa, a impopularidade das reivindicações deu-se entre outras coisas porque ficou a imagem que os poucos protestantes queriam apenas o desejo de garantir seu baseado sem aborrecimento com a polícia enquanto fora da USP a PM dá borrachada em maconheiro. Esses estudantes alimentados com Danoninho nunca se solidarizaram ou protestaram quando houve abuso policial em favelas ou quando um aluno FEAno foi baleado na cabeça recentemente. O apoio que buscavam não existiu quando a vítima era outro setor da sociedade. Ou seja, tudo pareceu muito egoísta e pequeno justamente por aqueles que pagam a conta dos privilégios. Alunos querem direitos com os quais parecem não se preocupar se serão estendidos aos demais.

Por fim, no Brasil parecemos viver uma época em que o simples cumprir das regras e leis parece ser um gesto repressor, talvez consequência dos pesadelos da ditadura, mas muito mais uma característica de um povo que primeiro quer direitos e benefícios infinitos para só então pensar em seus deveres. Precisamos entender que em uma democracia a lei deve ser cumprida, as mudanças delas devem ser por caminhos respeitando o direito do ir e vir e que, na insistência da arruaça, a PM defenda a própria sociedade dos que insistem em viver seu mundo de regras particulares.

2 comentário(s):

Fernando disse...

Belíssima matéria!!!!!!! Muitas pessoas deveriam ler isso!!! Parabens!!!!

Danilo disse...

Boa garoto!
Apenas mais um ponto sobre a questão da 'essência vanguardista' de uma universidade: a humanidade possui um eterno 'confronto' entre LIBERDADE e SEGURANÇA. É assunto recorrente em muitos filósofos. O que ocorre são ciclos: momentos de mais liberdade e menos segurança, seguidos por épocas de mais segurança e menos liberdade.
E não tenho muita dúvida de que estamos vivenciando o auge da liberdade, o que torna a reivindicação na USP ainda mais patética.

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