sexta-feira, 8 de abril de 2011

"Se eles querem o meu sangue, terão o meu sangue"

A cartilha de Dilma prega luto e choro em público nas tragédias no Rio.
Em SP, ela reserva apenas críticas ao governo PSDB-DEM.

*com colaboração de Rodolfo Araújo.

O Rio de Janeiro foi assolado por uma tragédia da qual muita gente calhorda diz tratar-se de algo tipicamente americano, justo nós que temos mais de 50 mil assassinatos por ano. Nos países civilizados, é mais provável você morrer pelas próprias mãos (suicídio) que pela mão de um outro (homicídio), mas não aqui no Brasil, onde temos acesso a armas muito mais restrito que o modelo americano, mas onde se mata 4 vezes mais. Cínicos.

Em momentos dramáticos como esse, as sugestões mais apressadas reaparecem. Houve uma onda de gente culpando os votantes do plebiscito do desarmamento como cúmplices sanguinários. É aquela teoria torta como caule no cerrado que não sobrevive a uma olhadela aos números ou à lógica. Quando uma pessoa sai gritando dizendo que a derrota do desarmamento matou as criancinhas cariocas ignora propositadamente que foi um desequilibrado mental, sem porte de arma e com um revólver roubado quem saiu atirando.

Infelizmente uma sociedade democrática não está 100% pronta contra doidos que atiram em multidões, matam em série ou explodem aviões civis. Mas ao apontarmos o dedo inconsequente da culpa contra tudo que pode matar, vamos acabar por acertar outras coisas. Assim, quem defende a restrição de armas tem obrigação moral de defender também o fim do cigarro (a grávida fumante mata facilmente seu filho) ou ainda os carros (25 mil mortes por ano no país), facas (20% dos homicídios são com armas brancas) e tudo que possa ser usado para matar. No pacote entra também as piscinas, que matam mais crianças do que as armas de fogo, acredite!

Na gritaria em meio ao luto, as pessoas esquecem as diferenças tecnicistas, mas fundamentais, entre “porte legal de arma”, ”desarmamento” e “contrabando”. Você proibir totalmente a venda de arma não muda as coisas porque o bandido nunca entrou na fila para tirar porte nem paga imposto comprando revólver regulamentado, ele recorre ao mercado negro, aquele mesmo onde VOCÊ também compra produtos roubados, filmes e jogos piratas, sempre com a absoluta certeza da impunidade.

Restringir o porte? Por incrível que pareça, a lei que rege o porte de arma no Brasil é moderna e muito rigorosa, mas o problema está na facilidade em comprar um revólver sem registro e a certeza da impunidade que faz qualquer um sair incólume mesmo metendo bala na testa de quem se queira. Desarmamento? Ele foi muito eficaz no passado em diminuir a morte domiciliar de crianças envolvidas em acidentes, mas não espere que o bandido se sensibilize e devolva sua ferramenta de trabalho. Só devolve arma o cidadão de bem arrependido, porém não é esse quem mata indiscriminadamente. Quem mata à margem da lei muitas vezes utiliza armas que já são proibidas por serem exclusivas das forças armadas e que não mudaria em nada com nova legislação.

Nosso Ministro da Justiça se apressou em dar uma "ótima"
solução: uma campanha de desarmamento das pessoas de bem.
Proibir por proibir? Então vamos voltar à idade da pedra, a menos que você convença e fiscalize o mundo inteiro, o planeta todo, o que é praticamente impossível. Aos que acham que todo e qualquer esforço vale a pena porque “menos arma é menos morte”, vai ter que entrar na luta contra o cigarro, piscinas e tudo mais. Nessa lógica um grande amigo meu escreveu o seguinte sobre as armas: 

Só o fato de uma arma poder ser comprada legalmente por um civil, já aumenta o número de armas no mercado, independente do número de portes. E não acho que a lei seria a maior revolução contra a violência, mas acho que ajudaria, então já valeria a pena aprovar.

Eu adapto para o seguinte:
‎"Só o fato de um cigarro poder ser comprado legalmente por uma gestante de bem, já aumenta o número de cigarros no mercado, independente do número de maços. E não acho que a lei seria a maior revolução na área da saúde, mas acho que ajudaria, então já valeria a pena aprovar."

Quem encara? E quem também defende o fim do álcool que gera tantas mortes ao volante? Vou mais longe, estatisticamente, a simples divulgação de notícias de chacinas como essa, ou mesmo de suicídios e até de queda de avião, aumenta a repetição desses casos. Incrível, não? Seguindo esse raciocínio, deveríamos promover a censura, proibir a divulgação porque ela “reduziria”, “ajudaria”, “já valeria a pena”? O que fazer? O jeito mais eficaz é o de combater o verdadeiro vilão: a impunidade. Mas isso dá muito trabalho, o povo brasileiro prefere ver sangue, nem que para isso atropelemos a lei, a constituição ou alguns outros direitos.

8 comentário(s):

Alexandre C. Serpa disse...

Fato!
Na Suica todo homem adulto acaba tendo uma arma em casa (são todos militares ativos) e qual o numero de homicidios?
Baixissimo (e segundo od jornais, cometidos for "aussländer" - estrangeiros)
Mas por que será?
Simples, porque o suiço tem medo da lei, porque o suiço pensa no bem da sociedade antes de pensar no seu!
Maaaas, por que o suiço age assim?
Aí é que não é simples, é porque ele tem educacao de qualidade, é porque ele confia no governo e outras instituicoes publicas, é porque os pais ensinam como ser "corretos" a seus filhos!
Quando pararmos de querer levar vantagem em tudo... Quem sabe....
(O brasileiro acha q é esperto porque paga o despachante pra 'furar' as filas, mas esquece que, como todos os outros brasileiros também pagam o seu despachante, ele acaba ficando no mesmo lugar da fila, mas gasta dinheiro pra isso, sem falar no tempo perdido pelos funcionarios publicos com as negociatas junto aos despachantes!!! Esperto não?!)

Marcelo Carvalho disse...

Triste artigo.

Aparentemente bem escrito, mas acima de tudo, triste. E, no meu modo de ver, muito equivocado.

Fácil de se argumentar quando o alvo é quase que infantil, como bater em bêbado: é óbvio que o desarmamento não resolverá o problema da violência como um todo, ou evitará que um maníaco adquira uma arma, entre em uma escola e mate crianças da idade dos seus filhos. Só um ingênuo acharia isso.

Agora, vamos à sua análise. Primeiro, muito cuidado com as analogias, essa sereia que seduz e, normalmente, engana. Comparar armas com cigarros? Francamente...a decisão de fumar ou não é algo de foro pessoal. A pessoa sabe dos riscos e, se vai corrê-los, é problema dela (ok, há o custo da saúde pública, etc, mas não é essa a questão em jogo).

Já uma arma...para que serve mesmo? A única utilidade de uma arma em uso é atirar em alguma coisa, normalmente que se move, ou seja está vivo, muitas vezes uma pessoa como você. Mesmo uma faca, outra analogia apenas aparentemente válida, tem outros usos que não atentar contra a vida de terceiros, função esta que é, digamos, um desvio de sua função original e principal. O mesmo pode-se falar do álcool, dos carros e - pelo amor de Deus - das piscinas.

A arma não tem outra função que não essa para qual foi usada agora, sendo a vítima uma pessoa ou animal. Assim, por esse único fato, independentemente de ter ou não relação com a maior parte das mortes, não deveria ser permitida nas mãos de pessoas não autorizadas. E pessoas não autorizadas são os cidadãos que andam do seu lado e, numa discussão de trânsito, podem fazer uso de seu instrumento, um resquício da época do Velho Oeste, em que era matar ou morrer.

Ah, mas e o direito de defesa, o livre-arbítrio de cada um? Novamente, erro. Primeiro, qual é o número de pessoas de bem que possui uma arma para defesa e, com ela, consegue efetivamente "se defender"? Você, cidadão comum? É mínimo. Já vi argumentos que se o bandido "tiver certeza" que você não está armado, aí sim ficará fácil...A única possibilidade de se concordar com esse argumento é acreditar que existe um enorme número de potenciais bandidos, que só não se convertem à bandidagem por considerarem a possibilidade da vítima estar armada. Bem...

Por fim, pode-se argumentar que é um direito do cidadão ter arma. Não é, a partir do momento em que o uso desse instrumento tem como fim, como já exposto, atentar contra vida de alguém, ou próximo disso. Eu não quero ter essa liberdade, e não quero que você também tenha.

Enfim, a restrição a armas nas mãos de cidadãos nada tem a ver com a tragédia no Rio. Só um idiota acharia isso. Mas, sem dúvida, é um bom momento para se levantar a questão - vale a pena deixar as pessoas terem um instrumento que mata com tanta facilidade, e só serve para isso? Qual é o propósito? Em que ajuda a sociedade a ser melhor?

Paro por aqui.

Abs,

Egregora disse...

A discussão é complexa, mas acredito que ter ou não armas não seja o principal da questão. Acho que tudo pode ser traduzido numa só palavra: "EDUCAÇÃO". É a senha para saber dicernir muitas coisas.
Dizer é simples mas o processo é complexo porque envolvem uma infinidade de pessoas (governo) e valores (população). O Brasil ainda irá chegar lá. Faz meio século que ouço que é o país do futuro.

Danilo Balu disse...

Oi Marcelo!

Não acho que seja triste um texto que apenas tenta defender uma opinião em um tema tão polêmico. É aquela história: “tolerância é saber tolerar o intolerável”.
Você critica o fato de eu usar exemplos como piscinas, facas, cigarros e automóveis. O ponto não é equiparar uma arma a esses exemplos, mas é criticar o foco quando há outros exemplos que matam mto mais ou então mais facilmente. Para mim, repito, quem quer o fim da arma porque ela mata tem a obrigação moral de defender o fim das piscinas que matam mais crianças que as armas e tb dos cigarros que matam crianças durante a gestação. Ou seja, o cigarro de uma gestante não é algo de “foro íntimo” como vc citou. Qdo vc tiver um parente próximo agonizando, cuspindo sangue por causa de um câncer de pulmão por fumo passivo vc volta para me falar desse tal “foro íntimo”. Não querer o fim do cigarro para mim é picaretagem e trapaça intelectual desses que agora criticam armas porque dá peso diferentes às mortes em fção daquilo que se gosta, se usa ou se persegue. Usando de sua analogia, eu digo que cigarro não tem outra finalidade que matar. Mto fácil eu dizer isso pq eu não fumo.
Quem afirma que “uma arma é arma” ou “arma foi feita para matar” está indiretamente defendendo a criação de um conselho de notáveis que vai nos dizer o que pode ou não pode nos casos quando duas coisas causam mortes, mas apenas uma desagrada mais.
Sabe, Marcelo, tenho PAVOR de arma. Mas esse pavor só não é maior que a nossa implicância tão brasileira de perseguir uma coisa e tolerar outra. Vc define que uma pessoa que tem uma arma não pode ser no fundo no fundo uma pessoa de bem. Eu não me dou o direito de definir quem é de bem pelo gosto dela por um tipo de objeto mesmo se submetendo às leis. Tenho talvez uns 2 amigos que gostam de armas, e são de bem. Assim como tenho amigos fumantes, corinthianos, que gostam de pagode, físicos... todos de bem! O gosto deles, desde que respeite as leis, não me importa. Não tolerar o gosto de uma pessoa que se interessa por arma, para mim é intolerância. Definir a índole de alguém que cumpre as regras do jogo apenas pela posse de algo como uma arma é intolerância.
Vc pode possuir uma arma sem ela nunca dar um tiro, vc não precisa ter prazer em matar pessoas nem animais ou “aquilo que se mova”. Achar que quem gosta de arma gosta disso é classificar as pessoas pelo gosto daquilo que VC persegue, isso é intolerância.
A nossa lei é super rígida no acesso às armas legais e no porte de arma. O que alguns pedem agora se baseia na desinformação já que não se compra arma como se compra uma TV de LED.
Por fim, vc cita a questão da arma não dar segurança. Isso é uma questão de teoria dos jogos. Vc não precisa usar a arma para ela te dar segurança. No dia em que vc tiver garantido que nenhum lar ou cidadão brasileiro possui uma arma, vc garante ao ladrão que ele pode mto mais tranquilamente sair assaltando as pessoas de bem com sua pistola semi-automática comprada no mercado negro na segurança de não ser incomodado. Vc goste ou não, a arma protege, sim, vc pode sair perguntando aos que se defenderam com ela com medo de depender somente do sistema público de segurança. É justo? Existem leis que definem isso. Em vez de sairmos restringindo as leis, é MTO mais eficiente reduzir o contrabando de armas. Mas dá trabalho pegar bandido, né?, então vamos atrás de quem cumpre as leis. Eles até então são de bem, mas como não são “dos meus”, não compartilham do meu gosto, vale tudo, até atacar a integridade deles ou sugerir que são assassinos em potencial, que mata tanto qto aquela piscina no quintal da NOSSA casa ou o cigarro da NOSSA namorada.
Vc falou mto em “não deveria ser permitida (armas) nas mãos de pessoas não autorizadas”, mas quem falou em liberar armas?

Abrax

Val disse...

Balu. A questão deve ser discutida mesmo. E adoro ver os outros pontos de vista, como os seus e dos que registraram nos comentários, contanto que tenham uma certa responsabilidade e não sejam apenas reflexo do que está passando na tv, em letras garrafais e em negrito nos jornais, sites, blogs - ou seja, puro sensacionalismo! Desabafei no Twitter que os noticiários deveriam apenas para despertar uma visão crítica (mesmo os menos letrados, estudados, mas com "experiência de vida" têm ótimos pontos de vista, não? ^_^). No entanto, só o que vejo são reportagens que visam sensacionalismo, ibope, sangue, desespero e inspiram apenas palavras de ordem vazias, cheias de preconceito ou restritas ao calor do momento, ao fato isolado, sem considerar vários outros aspectos... E só me fazem passar mais mal, além do que deveria.... Talvez por isso tenham tantos diagnósticos de depressão e outros transtornos. Fica complicado receber tanta informação sem critério, sem um embasamento, sem uma boa discussão atrelada à notícia. Enfim... Gostei bastante do seu post! Keep on blogging! ^_^ Beijão! Valdete

Val disse...

Voltei porque acabei de ler o post do Rodolfo... ^_^ Dois textos abrindo o coro do que venho pensando ultimamente! Parabéns aos dois, porque vou jogar para o meu "mundo" também a discussão (não estou com paciência - infelizmente) de postar algo também. Mas não posso ficar quieta de qualquer maneira! ^_^

Jeferson disse...

Pro Marcelo, que provavelmente não vai voltar aqui pra ler, aconteceu um caso parecido na China, em que um maníaco matou 8 pessoas... com faca.

De maneira semelhante, quem gosta de artes marciais também não deve ser gente de bem, né? Nem mesmo nossos atletas medalhistas de ouro, afinal, eles praticam um esporte cuja única finalidade é machucar os outros. E arco-e-flecha então? É igualzinho arma de fogo, em princípio, só serve pra matar, exceto que é mais primitiva e (hahahaha!!!) ambientalmente menos poluente!

Se você isso não considera esses fatos suficientes pra invalidar sua argumentação sobre armas, você não passa de um idealista sem percepção da realidade.

Balu, excelente texto. Mais um keep blogging pra você!

liazinha disse...

Oi, Balu!

Só queria acrescentar uma coisa aqui para seu amigo Marcelo Carvalho entender melhor o assunto. E colocar outro ponto importante, além do problema do contrabando de armas.

A arma é necessária para proteger quem a polícia não protege - e são muitos! Faltam policiais. A arma foi feita para matar, sim! E para matar bandidos. A polícia não cobre todo canto do país e tem muito cidadão "de bem" completamente desprotegido!

Quem tem arma legal, sabe usá-la. Como você mesmo disse, não se compra uma arma como se compra uma TV. Falo isso com conhecimento de causa. Meu pai, por questão de segurança, teve que comprar. Muitas vezes ele fica sozinho no interior de Goiás, onde não pega nem celular. Para comprá-la ele fez curso, passou por vários testes - psicológicos, inclusive - e a arma dele está registrada, como se deve.

Se a fazenda for invadida quando ele estiver lá e a vida dele ameaçada, o bandido morrerá! Se for proibido o porte legal de arma, os bandidos terão certeza que os cidadãos "de bem" estarão desarmados e, obviamente, ele não, pois - como você também disse - nenhum criminoso passa por esses testes e compra uma arma legal, identificada pelo número de série e devidamente registrada no próprio nome. Enfim, se for esta a realidade, somente os cidadãos de bem morrerão, sem a menor chance de defesa.

Quantos crimes são cometidos com armas legais? Alguns que são a favor do desarmamento, alegam que a arma legal pode ser roubada. Se for este o caso, o errado é ter a arma roubada e não ter uma arma. Agora proibir o cidadão de ter arma porque ela pode ser roubada... aff! Absurdo total!!! Aumente o número de policiais (e a qualidade deles) para diminuir a quantidade de assaltos, isso sim. O foco do problema é esse (alem do contrabando)! Não o cidadão de bem que fez curso, se preparou e sabe usar a arma para sua proteção.

No mais, adoro seus textos!

Beijos!
Lia

PS: Só não curti a parte que você coloca os corinthianos no mesmo grupo dos fumantes e pagodeiros... :S Humpf!

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