segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Já viu garçom gordo ser conselheiro de pessoa em dieta?

Restaurante é mais ou menos como Supermercado, não é só dispor aleatoriamente as coisas para serem vendidas, simples mudanças na apresentação são fundamentais na escolha do cliente. Tamanho dos pratos e altura dos copos mudam a percepção do tamanho e volume das porções, no cardápio, a maneira como escreve os preços muda a percepção do que é caro ou barato, e a ordem das opções deveria ser da maior margem de lucro e não apenas pelo preço do prato.

Se você quer evitar que algum “natureba” mala fuja daquele prato gordo, coloque alguma coisinha light como uma bolacha de água & sal ou um suco diet e ele já irá achar que o prato é bem mais leve e saudável, se na fila do auto-atendimento você quiser reduzir o consumo de bebida “roubada”, coloque a imagem dos olhos de alguém, isso funciona muito, acredite!

Como hoje todo mundo parece estar em regime, você precisa se cercar ainda de outras maneiras pra não perder aqueles que querem comer menos, lucrando assim mais. Um modo a princípio parece contraproducente, mas por incrível que pareça as pessoas em dieta seguem mais as sugestões dos garçons quando eles são gordos! Isso é o que conclui Brent McFerran e colaboradores em um estudo da University of British Columbia. Com funcionários obesos, 59% dos clientes em dieta seguiam a sugestão, mas quando eles eram magros, apenas 36% seguiam o sugerido!

Essa é uma prova que uma maior diversidade no perfil dos garçons pode ter mais benefícios do que apenas ter pessoas magras. Por exemplo, com funcionários magros, as pessoas que não estavam em dieta comiam mais entradas, sabidamente com grande margem de lucro e os em dieta comiam mais com funcionário gordo. A razão de tudo isso? Não se sabe ainda, mas parece haver identificação entre quem está em regime e o atendente acima do peso.


sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Terremotos - Democracia x Ditadura

Um dos livros mais interessantes que li ano passado foi o de Amanda Ripley: The Unthinkable - who survives when disaster strikes - and why. Nele, entre outras coisas, ela explica as razões de tragédias como terremotos matarem muito ou pouco e mostra ainda como “desastre natural” é muito mais raro do que supõem, as muitas mortes acontecem apenas em países despreparados, não tem nada de culpa da “Mãe Natureza”, isso é terceirizar a causa.

E o quê seria então determinante no número de vítimas em terremotos? A riqueza de um país? Afinal no Japão, um país riquíssimo com densidade populacional tão maior que a nossa, ninguém sabe onde nem quando vai ter terremoto e mesmo assim morrem muito menos gente do que os nossos soterrados de cada estação chuvosa, sempre na mesma época e lugares. Pois saiba que não é a pobreza que mais mata, é a ditadura!

Quando descontamos a riqueza de uma nação, temos que “desastres naturais” matam mais em ditaduras que em democracias. A razão parece ser porque os líderes eleitos se preocupam mais em preparar suas nações contra essas eventualidades com medo de perder o cargo na hora das eleições se estiverem mal preparados. Já os ditadores não têm nunca que se preocupar com o resultado das urnas, ao menos é isso o que mostra um estudo do Banco Mundial.

Porém nem tudo são vantagens, isso porque os políticos parecem ter mais benefícios eleitorais quando distribuem dinheiro para a reconstrução da região atingida do que com a prevenção das mortes. Isso é o que aponta um estudo de Andrew Healy, economista da Loyola Marymount University que fala sobre esse incentivo às avessas. Ou seja, assim, cada eleitor do líder que não investe em prevenção tem uma parcela de culpa porque o estudo mostra que esse eleitor é avesso ao candidato que alega haver necessidade de mais gastos com prevenção desse tipo de catástrofe.

Um ótimo texto de Alastair Smith e Alejandro Quiroz Flores, professores de Política da New York University, vai mais longe reforçando por que apesar de ser sugestivo, é muito equivocado achar que a riqueza de uma nação seria o maior indicativo de quão preparada uma nação seria para enfrentar grandes calamidades. Alguns dados apresentados são muito interessantes, por exemplo, o terrível terremoto na pobre ditadura Haitiana (magnitude 7.0) matou cerca de 222.000 pessoas. Mas um mês depois na democracia Chilena (magnitude 8.8, mais de 500 vezes pior que no Haiti) houve apenas 500 mortes. Outro terremoto na ditadura Iraniana matou cerca de 30.000 e na ditadura Chinesa eles morrem aos milhares ao longo dos anos, mas nas democracias de Chile, Japão e EUA não.

O equívoco da observação de EUA, Japão e Haiti poderia nos levar a achar a riqueza sendo o que de fato importa, mas 4 décadas atrás a pobre ditadura Peruana sofreu um terremoto (7.9) que matou 66.000 pessoas. Porém em 2001 a igualmente pobre democracia peruana sofreu um terremoto ainda pior, mas que matou apenas 150 pessoas mesmo com uma densidade populacional que era o dobro na região atingida. Mais um exemplo? São Francisco (EUA) em 1906 foi abalado com um terremoto que matou cerca de 3.000 pessoas, àquela época a renda per capita americana era similar à ditadura mexicana de 1985 que matou 3 vezes mais na Cidade do México. A democrática Índia em 2001 sofreu um terremoto que matou 20.000 pessoas, mas que em 2005, mesmo sendo mais fraco, matou 80.000 na ditadura Paquistanesa, um país levemente mais rico (ou menos pobre, como queira).

O estímulo que a democracia desperta na prevenção de mortes assim pode não ser muito claro, mas há muitos outros exemplos. Quando os políticos não fazem um bom serviço, eles acabam pagando caro. Exemplos? Num período de 2 anos em média 39% das democracias experimentam protestos contra o governo local, porém essa média é quase o dobro em países que sofrem terremotos com mais de 200 mortes. Em um período de 2 anos entre 1976 e 2007, 40% dos países democráticos trocaram seus líderes, mas esse número sobe para 91% entre os países que sofreram terremotos com mais de 200 mortes!

Essa pressão popular só é possível em democracias! Um país em especial é um exemplo: Turquia. Em 1999 eles sofreram 2 grandes terremotos em um período curtíssimo de 3 meses. Em Agosto daquele ano foram 17.000 mortes que quase custaram o cargo do recém-eleito primeiro-ministro, porém em Novembro um país muito mais preparado perdeu menos de 1000 pessoas no segundo tremor.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Transporte de crianças nos carros brasileiros e Freakonomics

Alguns anos atrás, Steven Levitt e Stephen Dubner ajudaram a mudar o mercado literário com a popularização de um novo tipo de livro sobre Economia Comportamental. Na esteira do sucesso mundial de Freakonomics, que vai ser lançado em breve em filme, surgiram outros que mostram como o que achamos ser pode não ser de fato a melhor opção. Entre tantas outras coisas ele explica no livro pioneiro como ter uma piscina pode ser mais perigoso às crianças do que ter uma arma em casa.

Não precisa ser dono de editora pra saber que um sucesso assim merecia uma continuação e assim foi lançado outro mega sucesso: SuperFreakonomics. A edição em português foi lançada no final de 2009 e trata de muitos outros temas, mas um especial tem muito a ver como nós brasileiros parecemos andar na contramão das coisas e da lógica. No livro organizado pelo jornalista Stephen Dubner, o brilhante economista Steven Levitt prova com estatísticas americanas colhidas por décadas de como o uso de cadeirinhas para crianças em carros é completamente ineficiente para se evitar as mortes dos pequenos.

Nos EUA, evitar mortes ao volante é uma questão séria e que envolve ciência, para nós é basicamente achismo, azar e estrada recapeada. As tais cadeiras são inúteis, é isso o que mostra um dos economistas mais badalados do mundo e o que nós brasileiros fazemos? Fazemos o inverso! Ainda no rastro da discussão de um dos livros mais aguardados do ano passado, começa no próximo dia 01 de setembro a fiscalização das novas regras para o transporte de crianças de até 7 anos e meio, que deverão ser transportadas obrigatoriamente no banco traseiro utilizando o tal dispositivo condenado pelo livro. Ou seja, o Código de Trânsito Brasileiro agora leva quem descumprir as novas normas referentes ao transporte de criança a uma penalidade que considera a infração gravíssima com multa de R$191,54 e 7 pontos na Carteira Nacional de Habilitação com retenção do veículo até que a irregularidade seja sanada.

Ciência pra quê? Dá pra imaginar lei nova mais estúpida e em hora mais inadequada?

Update: o leitor Marcos Sanches me enviou um estudo que simplesmente contradiz tudo o que eu escrevi sobre o novo suporte obrigatório. E ele parece estar certíssimo, pois no estudo enviado (você encontra aqui) o pesquisador cita o autor de Superfreakonomics explicando quais seriam as falhas metodológicas do estudo do meu post e por que o uso da cadeirinha deveria, sim, ser estimulada (no caso brasileiro, obrigatório). Além de apontar falhas (que me parecem muito coerentes), ele utiliza dados americanos mais recentes (1998-2003 versus 1975-2003). Acontece que esse estudo não tem o peso nem a atenção que o livro, então vai passar despercebido. Não que eu seja teimoso, mas ainda acredito ter sido um erro aprovar a obrigatoriedade do dispositivo quando um best seller mundial tão recente de um economista renomado diz ser uma medida inócua.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Wal-Mart e a Obesidade

Quando falava sobre o programa chinês de forçar a população de Pequim a realizar duas sessões diárias de 8 minutos de exercícios transmitidos via rádio, citei um dos fatores do crescimento da população de obesos, o barateamento de alimentos com consequente aumento do consumo dos processados. A rede de supermercados Wal-Mart talvez seja o maior símbolo de uma briga contra os preços, com todos seus pecados e virtudes, custos e corte de custos.

Então alguns pesquisadores quiseram analisar se a presença do Wal-Mart não aumentaria localmente o consumo exagerado de alimentos por causa de seus preços mais baixos. E ainda: qual seria a consequência disso?

O estudo do departamento de Economia da University of North Carolina encontrou que para cada 100.000 habitantes um supermercado adicional da rede aumenta o IMC (Índice de Massa Corporal) em 0,25 e em 2,4% o índice de obesidade nessa população! Pode parecer um tanto precipitado, mas a rede por si só seria responsável por 11% do crescimento da obesidade desde os anos 80!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Exercício na base da chibata

Recomeçou semana passada uma medida estranha em Pequim. Depois de uma interrupção de 3 anos em função dos Jogos Olímpicos em 2008, voltou ao ar um programa leve de exercícios físicos que existe desde 1951 para promover a atividade física entre os moradores da cidade chinesa. Com a veiculação duas vezes ao dia (às 10h00 e às 15h00), eles pretendem colocar cerca de 4 milhões de pessoas se exercitando por 8 minutos por sessão. É aquela história, para todo problema complexo há uma solução simples, e errada.

O problema do crescimento da obesidade é extremamente complexo e não há ainda um programa sequer que se mostre totalmente efetivo. As causas da obesidade podem ser desde problemas genéticos, passando pelo barateamento de alimentos gordurosos e o aumento do consumo de alimentos processados e calóricos tudo aliado à queda de gasto energético em virtude dos confortos da modernização. Em época de eleição o que não falta é candidato a deputado querendo promover saúde pelo esporte profissional, como se houvesse lógica nisso. Isso não funciona, mas continuam tentando.

Os programas de promoção da atividade física no país pregam 30 minutos diários. O programa chinês pede míseros 16 minutos distribuídos em 2 sessões, e não acredite no que muita gente diz, pois duas sessões de 8 minutos é muito diferente de uma com 16 minutos.

O problema da globesidade ainda vai custar muitos anos de pesquisa e investimento. Em uma ditadura, como na China, as coisas são sempre mais fáceis de serem impostas. Mas nesse ponto, gordura é como pobreza, não se resolve com canetada.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Água - o quanto beber no esporte. (Webrun)

Se você fosse um praticante corrida de rua ativo e com mais de 100 anos, teria que mudar de tempos em tempos sua estratégia de hidratação. Já nos Jogos Olímpicos de 1908, alguns dos principais atletas diziam que até água fazia mal, que os “verdadeiros atletas” jamais deveriam se hidratar durante uma prova. Algumas décadas depois, já nos anos 50 e 60, você até poderia beber, mas bem pouco, já que o maior problema era onde beber já que as provas nem ofereciam água.

Apenas no final dos anos 80 parece ter ficado claro que se hidratar e consumir água ou bebidas esportivas realmente melhora o desempenho em provas longas. Então as recomendações passaram a ser para beber ANTES da sede e o quanto pudesse. Uma grande bobagem!

Aí nesta década apareceu a hiponatremia e o temor da água voltou, passou-se a recomendar prudência no consumo (até sua avó sabe que prudência é tudo). Mas generalizar a hiponatremia está mais para lenda urbana do que risco, assim temos hoje que hidratar durante uma prova é importante, mas ainda estamos exagerando.

O mecanismo de sede funciona bem, bebemos nas provas mais água do que precisamos, este é o tema de meu novo artigo no portal Webrun. Para lê-lo na íntegra, clique aqui.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Hino Americano (The Star-Spangled Banner)

Durante o início de todo jogo da seleção brasileira de futebol os jogadores estão lá, perfilados ouvindo os acordes da primeira parte do nosso hino, mas sempre que isso acontece em jogos entre clubes, soa meio estranho, a torcida se põe a xingar o adversário e só. Nem as letras são cantadas, a bateria nem para de fazer barulho. Agora há ainda uma lei esdrúxula em alguns estados que se obriga tocarem o hino estadual! Vai chegar a hora que teremos o hino do bairro, da cidade, do estado, do país...

Não sei como é no exterior em jogos das seleções locais, mas entre clubes não há espaço para hinos porque a transmissão vai para o mundo todo e os times são recheados de atletas estrangeiros. Mas em um país em especial, o hino cantado é uma obrigação e uma tradição, o público parece querer isso! Onde? Nos EUA.

The Star-Spangled Banner é o famoso hino nacional americano. Ao lado do brasileiro, do uruguaio, do francês e do italiano, um dos 5 mais bonitos em minha opinião. Ele foi escrito em 1814 por Francis Scott Key, um advogado e poeta amador com 35 anos de idade, depois que ele testemunhou o bombardeamento de Fort McHenry em Baltimore (Maryland) durante a Guerra de 1812. Segundo consta, Key se inspirou com a vitória dos EUA e com a visão de uma bandeira americana triunfante ao término do conflito. Como essa tal bandeira inspiradora tinha 15 estrelas e 15 listras, a música ganhou esse nome de "A Bandeira Estrelada".

Já o "Nuestro Himno" é uma versão espanhola do hino nacional americano. A versão ficou bem mais famosa no ano de 2006 durante os protestos pela reforma das leis de imigração americana, mas a versão foi criada ainda em 1919. Ela não foi a primeira tradução porque ainda em 1861 houve uma tradução para o alemão, assim como também já haviam sido feitas para o hebreu, latim e francês.

Mas essa versão espanhola é a mais controversa por causa do seu uso político em apoio aos hispânicos ilegais no país. Ela não é uma tradução literal, mas uma versão remixada em estilo hip-hop (o que convenhamos não ajuda muito a causa) baseada na tradução de 1919. Além dessa politização, ela reduziu o aspecto bélico da letra original e também desagradou muita gente porque o hino, como a bandeira de uma nação, é um símbolo sacro que não poderia sofrer nenhum tipo de alteração.

The Star-Spangled Banner foi declarado hino nacional por uma resolução do congresso americano em 03 de Março de 1931. Mas bem antes disso ele foi reconhecido para usos oficiais de hasteamento de bandeira ainda em 1889 depois de ganhar popularidade por ser tocado em celebrações como o 04 de Julho (Dia da Independência) e em eventos esportivos.

Hoje o hino é tocado antes de praticamente todo evento esportivo nos EUA como jogos da NBA, NHL, NFL, MLS e MLB que envolvam ao menos 1 time dos EUA e também em todas as corridas da NASCAR. Ele conta com 4 partes sendo que geralmente apenas a primeira é executada. Mesmo assim, ele é muito difícil de cantar. Em um jogo da NBA, por exemplo, ficou famoso o episódio em que o treinador Mo Cheeks ajudou a jovem intérprete que esqueceu a letra de repente.

Outras execuções também ganharam destaque, como Marvin Gaye e sua versão soul no NBA All-Star Game de 1983. Mas talvez a mais citada e lembrada seja mesmo a da grande Whitney Houston em 1991 antes do Super Bowl. Essa foi a única vez que um hino nacional figurou no Top 100 da Billboard.

Abaixo você tem a letra da primeira estrofe em inglês, a tradução literal em português e o vídeo da famosa versão de Whitney Houston em 1991:

O! say can you see by the dawn's early light,
What so proudly we hailed at the twilight's last gleaming,
Whose broad stripes and bright stars through the perilous fight,
O'er the ramparts we watched, were so gallantly streaming.
And the rockets' red glare, the bombs bursting in air,
Gave proof through the night that our flag was still there;
O! say does that star-spangled banner yet wave,
O'er the land of the free and the home of the brave?

Ó, dizei, podeis ver, na primeira luz do amanhecer
O que saudamos, tão orgulhosamente, no último brilho do crepúsculo?
Cujas amplas faixas e brilhantes estrelas, durante a luta perigosa,
Sobre os baluartes assistimos, ondulando tão imponentemente?
E o clarão vermelho dos foguetes, as bombas estourando no ar,
Deu-nos prova, durante a noite, de que nossa bandeira ainda estava lá.
Ó, dizei, a bandeira estrelada ainda tremula
Sobre a terra dos livres e o lar dos valentes?

p.s.: existem algumas curiosidades sobre como se comportar durante a sua execução. Um código americano exige que a pessoa se coloque encarando a bandeira e com a mão direita no lado esquerdo do peito. Todos devem tirar chapéus, gorros e bonés enquanto os militares devem fazer seu gesto típico de saudação e esperar nessa posição até a última nota. Mas toda essa formalidade, caso não seja respeitada, não acarreta punição.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Racismo? Ou seria lógica?

[on getting through airport security]- Never get behind old people. Their bodies are littered with hidden metal and they never seem to appreciate how little time they have left. Bingo, Asians. They pack light, travel efficiently, and they have a thing for slip on shoes. Gotta love 'em.
- That's racist.
- I'm like my mother, I stereotype. It's faster.
(diálogo no fime “Up in the Air”, Amor sem Escalas)

A TV Bandeirantes estreou semanas atrás um novo programa nas noites de 3ª feira, se chama “A Liga” e é comandado pelo Rafinha Bastos, famoso pelo humorístico CQC, o carro-chefe da emissora. Eu já vi umas 2 ou 3 vezes e a impressão que se tem é que mesmo que o tema escolhido seja interessante, por eles tentarem também ser leves e engraçados acaba tratando tudo de forma rasa, meio populista, “jogando para a torcida”. O que eles tentam passar como sério, por causa das conclusões apressadas, acaba ficando meio tosco.

Nessa 3ª feira o tema escolhido foi “preconceito”, por coincidência nesse mesmo dia os telejornais veicularam o caso do funcionário da USP, Januário Alves de Santana, um negro que foi espancado em um supermercado da rede Carrefour por ter sido confundido com um assaltante. Ele virou suspeito entre outras coisas por dirigir um Eco Sport, um carro sabidamente caro e, aos olhos dos seguranças, ele não poderia ter como dono alguém com aquela aparência. E o que há de comum na superficialidade do “A Liga” e no crime cometido em Osasco?

Os seguranças e policiais que espancaram Januário Alves de Santana erraram 2 vezes: uma ao espancar alguém rendido e depois por tomar como culpado um inocente. Mas eles cometeram também um 3º crime? Houve o crime de racismo? Não creio.

Não dá pra sequer imaginar a raiva e os instantes de terror pelos quais passou Januário Alves de Santana. Mas voltemos antes ao programa "A Liga". Em um dado momento eles colocaram 6 pessoas fisicamente de aparências bem distintas para que alguns convidados relacionassem exatas 6 profissões com essas pessoas, mas o veredicto de duas em especial chama a atenção: a de um negro e a de um travesti. Havendo apenas duas mulheres no grupo de 6, um travesti e uma senhora de meia-idade, você na prática poderia optar apenas entre "dona-de-casa" e "prostituta". A maioria optou pelo travesti sendo prostituta e errou porque ela é, na verdade, uma dona-de-casa, e a senhora é que era a prostituta. Eu cairia no truque deles pelo equívoco da observação, afinal conheço muitas donas-de-casa de meia-idade e vejo muitos travestis na rua se prostituindo. É preconceito? É um pré-conceito? Sem dúvida. Tenho algo contra travestis e donas-de-casa? Estaria assim discriminando uma pessoa pela opção sexual dela? Desculpe, mas não creio que esteja. Não acho que um travesti seja menor que uma dona de casa, mas há estereótipos.

Mas o caso do negro avaliado é ainda melhor. Ele é médico, mas ninguém acertou sua profissão e o Rafinha Bastos então alegou que isso seria racismo. Será? Não mesmo! Convido o apresentador a ir a algumas das maiores universidades brasileiras conhecer as turmas de Medicina. Quanto negros há nas classes? Por que haveria uma geração espontânea de negros médicos nos hospitais se não os há nas faculdades? O mero chute, a mera observação, a mera lógica não está tornando implícita a preferência de uns pelos outros. Ninguém com essa escolha está achando que negro não é uma pessoa boa o suficiente para ser médico, achamos, sim, que eles são tão poucos e raros na profissão que se precisamos chutar, seguimos a probabilidade. Ou seja, isso é lógica, não racismo. Racismo seria preferir um médico branco porque eles seriam melhores do que os profissionais negros e isso um teste tosco como esse não avalia.

Não vou ser tonto nem inocente de negar que exista racistas no país! Há, sim, muitas pessoas que consideram que a cor ou a raça podem realmente definir a competência ou a índole de alguém, que considerem homossexuais pessoas menos confiáveis ou mais promíscuas. Há de tudo nesse mundo, mas quando nos apressamos colocando equivocadamente tudo no mesmo balaio, confundindo o que de fato é discriminação, criamos um grave problema de conceituação que banaliza um crime aos olhos do brasileiro. E como de costume no país, essa banalização, essa miopia no diagnóstico o torna tão recorrente e também, por isso, mais aceitável, natural, e até menos grave.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Dream Team de 1992, "O" time!

Qual a maior equipe esportiva que já existiu? Não importa a época ou a modalidade, qual foi a mais genial? Não deveria haver dúvidas, foi o Dream Team americano. A equipe de basquete que representou os EUA nos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992 foi o mais genial time já montado. A nossa seleção de futebol tricampeã no México em 70 foi fantástica, mas nenhum outro time em toda história juntou tatos talentos num mesmo grupo. Finalmente chega um reconhecimento mais formal com a entrada desse time no Hall da Fama do Basquete (The Naismith Hall of Fame).

Esse hall da fama foi criado em 1959 e fica em Springfield (Massachusetts, EUA). Por mais que alguns dos nomes do time sejam gênios indiscutíveis, temos que lembrar que existem critérios rígidos para ser eleito. O comitê exige, por exemplo, inúmeras votações e que o indicado a ser votado esteja pelo menos 5 anos aposentado como jogador.

Pra quem gosta de esporte, acompanhar toda a criação do Dream Team foi um privilégio. Os americanos vinham de uma decepcionante medalha de bronze conquistada nos Jogos de 1988 com um time formado apenas com universitários. Porém a FIBA, a federação internacional de basquete, decide em 1989 por permitir a entrada de profissionais nos Jogos Olímpicos seguintes, assim os americanos decidiram enviar o que de melhor eles tinham jogando na NBA.

Em setembro de 1991 então convocam os primeiros atletas que representariam os EUA: Michael Jordan e Scottie Pippen (Chicago Bulls), John Stockton e Karl Malone (Utah Jazz), Magic Johnson (Los Angeles Lakers), Larry Bird (Boston Celtics), Patrick Ewing (New York Knicks), Chris Mullin (Golden State Warriors), David Robinson (San Antonio Spurs) e Charles Barkley (Philadelphia 76ers, depois transferido ao Phoenix Suns).

Mais tarde completariam o elenco: Clyde Drexler (Portland Trail Blazers) e Christian Laettner que foi o representante universitário (Duke University). É curioso lembrar que ele ganhou a disputa pela “vaga universitária” de ninguém menos que um então novato Shaquille O'Neal (Louisiana State University).

Eu lembro muito bem da expectativa que se criou com esse time. Eles jogaram em 1992 o pré-olímpico nos EUA e atropelaram os times mais fortes, entre eles Cuba (136 x 57) e Venezuela (127 x 80). Houve também um amistoso contra a seleção universitária americana e em Barcelona eles ganharam os jogos com uma diferença média de 43,8 pontos e na final bateram na Croácia vencendo 117 x 85.

Abaixo, você tem a cerimônia que homenageia a melhor equipe esportiva jamais formada.. Como poderá ver, há uma bandeira brasileira em um momento do vídeo porque na mesma noite o ex-pivô brasileiro Ubiratan Maciel (1944-2002), campeão mundial em 1963, foi postumamente incluído no hall. Ele passa a ser o segundo membro brasileiro do Hall da Fama. Antes, foi a vez de Hortência, em 2005:

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Negros e American Idol

O que há de comum no American Idol e na NBA? A importância da cor do telespectador na participação no evento. Isso é o que aponta um estudo que mostra que quando há mais candidatos negros, há maior audiência entre negros. Além disso, com mais negros assistindo o programa, o cantor negro tem assim mais chances de não ser eliminado da competição.

Essa é uma maneira interessante do público se projetar no programa. Algumas pesquisas mostram que nos anos 80 e agora com bem menos influência, havia uma importância em se ter atletas brancos na NBA para atrair o público de mesma cor.

Uma lei eleitoral brasileira pode ter esse mesmo efeito indireto. Quando você obriga que 30% dos candidatos de um partido seja mulher, você atrairia assim maior interesse das mulheres em votar nelas. O simples aumento da eleição delas nos últimos pleitos não prova por si só que tenha funcionado. O que você consegue provar, sim, é tratar-se de uma lei preconceituosa na medida em que pessoas baixas e feias que têm também rejeição junto ao eleitor, nem por isso contam com vagas garantidas por lei entre os candidatos. Ela seria mesmo um grande crime se houvesse cota, mas aí já é outra história.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Sobre senhas eletrônicas...

Ainda que mexa tanto com computador/internet, admito que se você descobrir alguma senha minha, está no comando de qualquer coisa que eu tenha, tenho praticamente a mesmíssima senha pra tudo: e-mail, redes sociais, MSN, jornal online... Mas não as básicas, ela é um pouco elaborada, mas é praticamente a mesma.

Pois um incidente diplomático entre israelenses e turcos, o vazamento de um grande banco de dados virtuais e a disposição de um dos mais brilhantes estudiosos de Economia Comportamental, Dan Ariely, gerou uma análise informal sobre 100.000 contas e senhas que estão disponíveis na internet aos mais instruídos e interessados no assunto.

Com esse monte de informação, Ariely pode analisar o quanto de cuidado as pessoas têm ao criar suas senhas. E os resultados são espantosos. Pra começar, ele se debruçou sobre quase 32mil contas de um site que dá liberdade total na escolha da senha, ou seja, nada de número mínimo de caracteres ou obrigação de conter letras e números. Nele você pode escolher “x” como senha e ele aceita. Então com isso ele pode analisar melhor a escolha das pessoas justamente quando elas tinham total liberdade.

Desses, mais de 50% (metade!) usa o próprio e-mail como usuário (username ou id)! Mais de 2% usou o número de telefone como usuário. Você pode dizer: tudo bem, nem tão grave. Verdade, mas o mais impressionante são mesmo as senhas. 5,65% delas são, em ordem de preferência, 123456, 1234 ou 12345! Ou seja, 1 em cada 18 pessoas tem uma dessas 3 senhas! Outros 2,5% têm a senha exatamente igual ao usuário! Ou seja, com apenas 4 senhas você invade uma a cada 12 contas!

Se você tiver mais paciência pode ainda aumentar suas chances de 1:12 para 1 a cada 10 (10%!!) se incluir a variação com números idênticos (ex: 11111, 3333...). Por fim, outras senhas também muito usadas são aquelas com 3 letras de alguma linha horizontal no teclado (ex: QWE, ASD, ZXC...) ou as verticais QAZ e a 1QAZ. O inescapável ABC também é ainda muito popular. Acredite, ainda!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

iPod e direção

O pai de um dos meus melhores amigos dizia o seguinte: se você me der uma chave de fenda e um pedaço de fita crepe, eu conserto o mundo. Meu mote é diferente, me dê carta branca e em alguns dias eu resolvo boa parte dos problemas do trânsito paulistano. Sério.

Estacionamento em vias públicas? Zona Azul em TODAS as vias dentro da zona de rodízio com preços diferentes e altos o suficiente pra que haja SEMPRE 20% das vagas disponíveis fazendo com que ninguém tenha que procurar. Indústria de multas? Você nem imagina o quanto acho que se multa pouco! Invasão de corredor de ônibus, estacionar em mão dupla, fechar cruzamento, falar ao celular... Eu seria o terror dessa gente!

Brasileiro é um ser estranho, reclama de ser multado exatamente quando comete uma infração! Eita povo esquisito! Outra mania de quem dirige, seja ele brasileiro ou de Saturno, é achar que álcool e falar ou mandar torpedos ao celular não atrapalham tanto. E como atrapalham! Recentemente uma pesquisa mostrou que até um simples programa esportivo no rádio do carro pode tornar as coisas menos seguras. E agora é a vez de um estudo da seguradora britânica Automobile Association mostrar que o tocador de MP3 gera até 17 acidentes por dia no país!

Por incrível que pareça, a legislação brasileira nesses casos parece ser mais rigorosa, pois permite apenas um fone monoauricular enquanto no Reino Unido você pode usar os 2 fones. Mas o nosso pseudoliberalismo acaba por aí porque lá quando você causa algum acidente grave você paga feio pelo erro, enquanto aqui no Brasil na prática cada um tem direito a causar ao volante ao menos um acidente com morte(s).

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Igreja e eleição

Ano de eleição presidencial nos EUA é interessante porque a produção de pesquisas sobre esse processo democrático é incrivelmente maior e pode ser facilmente aplicável em outros países que não compartilham de algumas características tão americanas quanto o voto facultativo, eleições em dias úteis e um processo quase que bipartidário.

Dentre o que saiu por lá, uma que acho interessante é o fato dos dias de eleições americanas registrarem um índice de acidentes com mortes no trânsito muito acima da média. Isso porque muitas pessoas sairiam do trabalho em direção à sua zona eleitoral e acabariam assim indo com pressa para ruas e avenidas que não frequentam, causando acidentes fatais.

E agora me deparei com outra interessante. No Brasil, grande parte das zonas eleitorais são escolas (públicas ou particulares) e faculdades, nos EUA elas acontecem em qualquer birosca que você possa imaginar. E se elas acontecessem também em igrejas? Será que isso alteraria alguma coisa? Será que somos assim tão decididos e livres de intervenções externas?

Vale dizer que lá é tal como aqui, você escolhe a região, não o local exato em que votará. Então se observou que os participantes do estudo votando em igrejas eram mais propensos a votar em candidatos conservadores e também a favor do banimento do casamento do mesmo sexo do que aqueles que votavam em um prédio neutro.

Já em outro experimento as pessoas quando na igreja pareciam menos dispostas a apoiar questões relativas ao aborto do que aqueles que estavam no prédio neutro. O mesmo resultado se obteve em um experimento em laboratório expondo as pessoas a imagens neutras ou a imagens eclesiásticas. E este efeito, até com certa lógica, parece ser observado apenas em católicos.

Tudo isso lembra um pouco aquele estudo do Dan Ariely do qual falei aqui que mostrava alunos expostos a uma mera tentativa de recordação dos 10 mandamentos bíblicos e que acabavam assim colando bem menos que os não-expostos. E isso tudo sem qualquer razão mais religiosa, apenas subliminar.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

No carro: Ar-condicionado ligado ou desligado?

No meu mundo ideal e mais justo, ar-condicionado (AC) em carro é item obrigatório como um volante, pneus uma boa buzina. O negócio é entrar no carro, dar aquela buzinada pra ver se está tudo ok, dar partida e ligar o AC. Economia de combustível pra não esquentar p planeta? Eu deixo isso pra você. Escolher carro mais econômico só poupa o nosso bolso, não o planeta.

Para aqueles que querem brincar de Capitão Planeta e ao mesmo tempo usar o AC sem aquele sentimento de culpa, boa noticia! O AC pode, sim, ser econômico! Uma regra básica que parece funcionar bem na maioria das vezes é a seguinte: deixe as janelas abertas na cidade e utilize o AC na estrada. Cada carro tem uma velocidade ótima à partir da qual seria mais econômico mudarmos do uso apenas da janela aberta para o AC é o que mostra um texto da Slate.

Essa velocidade ótima para ligar o AC muda muito de um modelo a outro assim como o aumento do gasto de combustível com o AC também varia muito. O aumento do gasto com o uso do AC pode ir de 3% a 10%, mas em dias mais quentes pode chegar a 20% porque o carro irá gastar ainda mais para resfriar o ar quente do ambiente.

O maior problema com a janela aberta, descontada a insegurança nas cidades grandes, é que você aumenta o arrasto do carro, a resistência do ar. Na cidade, por causa das velocidades mais baixas esse valor é menor. Mas na estrada com a janela aberta há mais vento entrando, mais arrasto, menor eficiência e maior consumo de combustível.

Um estudo de 2004 da Society of Automotive Engineers jogou um pouco de luz nesse tema quando colocaram alguns veículos em um túnel de vento e na pista de testes a 30°C para fazer as contas. Os pesquisadores notaram que com as janelas abertas, um sedã aumenta em 20% a carga de seu arrasto por causa da entrada de ar. Por causa disto, para sedãs e carros compactos, 72km/h parece ser a velocidade a partir da qual vale mais a pena fechar as janelas e ligar o AC. Alguns outros estudiosos discordam e acham que esse valor só vale para velocidades a partir de 120km/h.

Infelizmente a conta não é tão simples porque depende do vento e da temperatura exterior. Independente de tudo, o AC parece não ser um vilão em tempos do ecologicamente correto.

update de leitor: recebi na seção de comentários o link (aqui em inglês) de um episódio do programa de TV MythBusters (Os Caçadores de Mitos) que faz justamente um teste em campo com uma SUV. Lá nos comentários escrevo o porquê acho bem falha a metodologia deles.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Mais licença-maternidade...

- Hey, Nina. Uh, about tomorrow morning... you know how the first hour of the morning meeting is always so slow? 'Cause I've got this thing...
- Good God, this is not about your kids again, is it?
- I know, I promised I wouldn't do this, but Parker really needs me to be there on his first day of kindergarten. He's so freaked out I can't be there.
- I'm sorry. How is this my problem?
- Because we can't escape the fact that I have kids. I love my job, but to be fair, there's gotta be some balance.
- Okay, how about the people that don't have the kids? Did you ever consider that they might need a little more balance in their lives, hmm? Like, maybe they want to go see a matinee or perhaps they want to come in a little late after a big crazy night out or maybe they just want to get a hair cut, which I, myself, have not been able to do for two months. So, no, this is about fairness to the people who are childless by choice, okay?
- Okay. Good point.
(Desperate Housewives, You'll Never Get Away From Me)

Alguns dias atrás foi sancionada a lei que estende a licença-maternidade de 4 para 6 meses a todas as trabalhadoras. A lei por si só já é errada porque torna a mulher ainda mais cara ao empregador que assim só ganhou incentivos para NÃO contratar mulheres. E no UOL publicam um texto sobre a razão de não haver também uma licença grande para pais. Dei uma lida nos comentários e o que me surpreendeu positivamente foi uma enorme quantidade de gente CONTRA a extensão aprovada e contra essa ideia tosca.

O que ficou muito claro aos leitores, mas nunca aos legisladores que brincam com dinheiro alheio, é que a lei brasileira é uma excrescência porque ela pega o benefício europeu (licenças se estendendo por até 2 anos) com uma particularidade tupiniquim (pagamento na íntegra por parte do empregador e não do estado). Na mesma semana uma reportagem na Record News mostrava famílias finlandesas que retornavam ao trabalho antes do período de direito porque o salário não é na íntegra. Nada mais óbvio.

A crítica que li no artigo original era centrada justamente nos opositores da aprovação com o velho discurso de machismo, falta de compaixão e blábláblá. O que nunca fica claro pra essa gente é que ter filhos deve ser sempre uma decisão do casal. Acidentes acontecem e camisinhas estouram? Com certeza. Aos que decidem (ou não) por ter filhos, que o governo pague a licença naquele mesmo teto-salarial que existe hoje para as aposentadorias. Quer ganhar mais? Volte ao trabalho ou se programe financeiramente para isso. Sua empregada não tem que pagar imposto pra bancar o salário do casal classe-média e classe-média alta terem filhos.

A licença-maternidade deve ser sempre uma política social aos mais necessitados, aqueles que ganham menos que o teto e serão apoiados pelo estado, não pelo empregador. Hoje, ela só serve para tornar a mulher mais cara e preterida quando está em um relacionamento mais estável e na faixa dos 20 aos 35 anos.

Empregador não é ONG, não espere compaixão dele. Todo incentivo econômico traz consequências e o aumento da licença nos atuais moldes é um incentivo à não contratação delas. Com essa extensão a mulher fica mais cara, se ela está disposta a isso sem reclamar, ok, do contrário, que elas se preocupem, pois aprovaram uma lei que só vem para atrapalhá-las.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Relação preços e logotipos em produtos

Existe uma determinada linha de roupa esportiva caríssima de uma marca muito popular no mundo inteiro que vem com uma discretíssima letra Y que indica tratar-se da série. Há ainda outra bolsa desejada no universo feminino que sequer tem o nome da marca, mas qualquer mulher sofisticada reconhece. Existem até lojas de grife cara que não têm indicação do que seria. Mas para quê isso? Pois um estudo a ser publicado no The Journal of Consumer Research vem mostrar a razão: produtos da categoria superluxo têm menos logotipos e/ou indicativos da marca que os produtos mais baratos.

Em vez de se apoiarem na obviedade dos logotipos, que a maioria pode reconhecer, esses produtos feitos para consumidores da mais alta classe social, usam marcadores muito discretos, detalhes estes reconhecidos somente entre os consumidores da marca ou desse tipo de produto. Esses consumidores que pagam muito mais do que a imensa maioria dos consumidores pode investir em certos produtos como óculos escuros, prefere detalhes que passam despercebidos aos demais, que não podem arcar com esses valores, mas que são facilmente reconhecidos entre os “seus”.

O estudo mostra que 87% da amostra de óculos com preços entre 100 e 200 dólares continham o logotipo ou o nome da marca, porém quando analisados modelos que custavam mais de 600 dólares, apenas 27% apresentavam essa característica. O mais interessante é que este tipo de comportamento pode ser observado em produtos visíveis como uma bolsa de mais de U$1000, mas não em roupas íntimas ou meias.

Jonah Berger, professor de marketing da University of Pennsylvania e um dos autores do estudo, explica que não há nessas pessoas qualquer problema ou aversão a logotipos, mas justamente o fato de não haver é o que os distingue dos demais que não sabem reconhecer o produto e – o mais importante! - quem os consome. Enquanto isso, parece óbvio que com os produtos não tão caros da mesma marca as pessoas compram justamente para exibir aos demais.

*dica do Danilo Bessa, o Batata.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Mais de 2 anos, 506 posts...


Dizem que devemos comemorar cada pequena conquista, cada simples avanço. Não sei onde um blog amador entra nessa história, mas dia 21 de Julho passado esse pequeno espaço completou 2 anos de vida! Não só perdi a data como também deixei passar sem nenhuma observação a publicação do post número 500.

Pra não passar em branco, fica aqui então o relato: mais de 2 anos, mais de 500 posts e quase mil comentários! O blog que começou meio como passatempo, terapia e também – acreditem! – atendendo pedido de alguns amigos hoje já não é mais diário, como o foi por quase 2 anos, mas ainda segue firme e forte como terapia e como espaço particular pra falar o que penso. Para poucos? Sim, mas ainda acredito piamente que o que sai pela minha voz independe da potência do autofalante.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Mais um capítulo no debate sobre desempenho esportivo de branco vs negros

Nesse final de semana terminou o mais importante torneio continental de atletismo, o Campeonato Europeu. Dois fatos ganharam manchetes na imprensa: a atleta jamaicana naturalizada eslovena Merlene Ottey que competiu no revezamento 4x100m aos 50 anos, se tornando assim a atleta mais velha a competir em toda a história do torneio, e a vitória do francês Christophe Lemaître nos 100m e nos 200m.

O que há de especial no francês é que ele se tornou o primeiro branco em 30 anos a vencer a prova dos 100m. Ele já havia sido destaque recentemente ao se tornar o primeiro branco a quebrar a barreira dos 10 segundos nos 100m tornando-se assim o 72º homem a fazê-lo, 42 anos depois do primeiro negro. Obviamente que não demorou então pra que surgissem as primeiras explicações do significado disso e voltasse uma discussão besta porque mal explicada: haveria uma superioridade negra no esporte?

Alguns dos principais treinadores brasileiros foram entrevistados em algumas reportagens na TV e se saíram com duas razões. Nélio Moura, treinador da saltadora Maurren Maggi e um dos melhores do mundo, saiu-se melhor: por motivos sociais há mais negros que aparecem para treinar aqui no país, e isso seria um indicativo. Outro conhecido treinador, que defende uma superioridade negra, se atrapalhou e disse que, se a causa fosse social, na Europa os negros teriam espaço na natação.

Nem só uma coisa, nem outra. É um fato que no grupo dos melhores velocistas da história há mais negros e não deveria ser tabu algum afirmar isso. Um estudo sobre qual já falei aqui, comprova que entre os melhores alunos de matemática há sim mais homens, mas isso não impede que entre os piores também haja mais homens, isso outro fato. E no estudo em questão não se comete a besteira de dizer que todo homem seja melhor que toda mulher no cálculo. Será então que entre os homens mais lentos do mundo não haveria também uma maior presença de negros? Pode ser.

Esse cuidado em ser politicamente correto torna a discussão menos científica e também mais aborrecida, mas mais do que isso, algumas pessoas parecem arriscar conclusões apressadas. Não me parece correto comparar uma corrida de 100m, algo tão “democrático” e de baixo custo com as provas de natação. Mesmo na Europa os negros são minoria na população e também minoria entre os melhores da natação. É precipitado dizer que negros não nadam bem porque o maior obstáculo da cor no desempenho na modalidade tem mais a ver ainda com as chances menores de um acesso fácil a uma piscina do que a uma densidade óssea mais elevada em negros, razão infundada repetidas algumas vezes tempos atrás.

Por sua vez, o atletismo passa a ser grande alternativa de ascensão social entre os caribenhos, descendentes de negros africanos. Enquanto isso o negro europeu não tem apenas no atletismo essa forma de melhorar sua condição sócio-econômica. Você por acaso enxerga muitas alternativas para um caribenho que não o esporte (basquete, beisebol atletismo...)? Assim fica fácil entender que um negro, americano ou caribenho, morador pobre de subúrbio, ao ver o êxito de outros negros velocistas locais se sinta compelido a também tentar a sua sorte.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Antidoping sem exames

Quem é José Canseco? É o homem que pode fazer com que a matemática passe a valer mais na guerra contra o doping no esporte. Não que Canseco seja um grande economista ou matemático. Na verdade ele é um atleta de beisebol da liga profissional americana e também sobre quem pesa fortes acusações de consumo de substâncias proibidas no esporte.

Os economistas israelenses Eric Gould e Todd Kaplan lançaram um estudo importantíssimo que, sem analisar uma única gota de sangue sequer, consegue provar que Canseco se dopava. Como? Os 2 pesquisadores aproveitaram 3 características do beisebol: a imensa paixão americana pela modalidade, a enorme quantidade de dados/estatísticas nesse esporte e também a grande estabilidade das regras em um período de mais de 100 anos.

A desculpa de muitos atletas que admitem o uso de doping, como Ben Johnson (atletismo) e alguns ciclistas, é o de dizer que o fizeram por ser uma prática recorrente no meio. Eles explicam o seu ato ilícito porque todos fariam isso (*já ouviu esse discurso à época do Mensalão??). Para esses atletas que assumem a trapaça, o doping feito por todos torna o erro justificável.

Será que ver Canseco consumindo anabolizantes então não poderia incentivar os demais? Por isso, mais do que analisar o desempenho de Canseco, eles analisaram o desempenho de seus colegas de time em vários pontos. Isso porque um grande atleta pode exercer influência nos demais da equipe de diversos modos; ele pode ser um motivador intrínseco nos treinos ou – pior! – pode ser o tal mau exemplo no dia a dia do vestiário que levaria outros atletas a se doparem.

Pois pelo estudo vemos que os atletas acertam mais home runs quando têm Canseco em seu time! Então os pesquisadores isralenses analisaram os dados dos atletas das posições que mais se beneficiam com ganho na potência muscular. 2 home runs por ano foi a melhora média além de outras melhoras, todas elas estatisticamente significativas! Mas o “bingo” é dado quando você analisa os dados para os quais o ganho de potência muscular NÃO resulta em ganhos. Pois os amigos dopados de Canseco não melhoraram neles! Então... Bingo! Ele parece não ser exatamente um líder incentivador de treinos!

E como não culpar um inocente? Recorra-se ao passado. Analisando outros 30 grandes atletas não se encontra nenhum que tenha gerado alterações nos seus colegas nessas características. Mas o golpe final é quando se analisa os dados antes e depois de 2003, pois esse foi o ano em que para ganhar um mínimo de seriedade na guerra contra o doping, decidiu-se na liga dos EUA implantar–se um controle antidoping. Se Canseco for “limpo”, nada mudaria. Mas...

As melhoras da presença de Carseco no time simplesmente desapareceram!

As implicações práticas desse estudo ainda são mínimas já que você não consegue ainda pelas leis do esporte punir alguém assim, mas ficará mais difícil você negar. Mas para isso outros estudiosos terão que contar com a mesma originalidade do estudo, casuísmo (como a lei antidoping de 2003) e mesmo a rica fonte de dados naural do beisebol.
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