quinta-feira, 23 de julho de 2009

Quando rezar no campo de futebol vira falta desleal...

Já virou tradição, quando há jogador brasileiro em campo, o árbitro apita fim de decisão de campeonato e os jogadores já saem correndo pegando suas camisetas “Eu amo Jesus” escritas em português, inglês ou no idioma predominante local. Foi assim em 1994 e depois em 2002 nos títulos brasileiros mais recentes em Copa do Mundo. Foi assim também em quase todas as finais com jogadores brasileiros, com a diferença que nesses 2 torneios e agora também na Copa das Confederações na África do Sul a seleção brasileira fez uma roda no meio do gramado para expor sua crença ao mundo rezando em alto e bom tom o "Pai Nosso". Mas seria isso permitido e adequado?

Como esporte não deveria combinar com política nem religião, mas há muito são sempre associados, até que demorou a que aparecessem as reclamações. 15 anos para ser mais exato. O fato é que as regras da FIFA realmente impedem mensagens políticas e/ou religiosas ainda em campo. O descumprimento é passível de punição. Por causa disso e também pelo protesto feito pela Associação Dinamarquesa de Futebol (a CBF deles), a FIFA alertou, ainda sem punir a entidade brasileira, pedindo moderação no que seriam excessos dos nossos jogadores nas comemorações (já talvez aqui também mais crentes das nossas chances ao hexa com um bom trabalho do até então muito criticado treinador Dunga).

Os dinamarqueses vão mais longe e pedem providências maiores saindo em busca de apoio de entidades de outros países. Mas seria isso um excesso? Não seria mais justo permitir que cada time comemore do jeito que bem entender?

É um tema complicadíssimo. Baseado na dissociação Esporte e Religião, a reclamação faz muito sentido, mas como se conter após vencer o título esportivo mais importante que existe? Por outro lado, a (in)tolerância religiosa pós-2001 também fala alto. A religião hoje é talvez a razão principal, mas obviamente não justificável, para que se matem muitos. Por outro lado, não é de hoje que as maiores potências do futebol mundial são países com maioria católica ou protestante, mas e no dia em que um país predominantemente muçulmano ou então cheio de muçulmanos no seu elenco vier a vencer um título de expressão mundial? Teremos a mesma tolerância? Eu ainda acredito que sim. Mas façamos uma pergunta diferente, no caso de termos que aceitar uma comemoração muçulmana, será que essa mesma liberdade nos seria dada na comemoração rezando um Pai Nosso em um estádio de um país muçulmano? Eu duvido!

Voltamos assim à velha questão de defender a liberdade de expressão dos outros sabendo que o inverso não seria permitido. A Dinamarca é um país extremamente liberal que apenas enxerga nesse exagero tão latino apenas a chance para outros excessos muito mais perigosos. Nesse ponto estou com eles: no gramado, nos limitemos ao esporte.

7 comentário(s):

Gian disse...

Tenho dois comentários sobre o assunto:
1- Os maiores prejudicados no caso da celebração brasileira são os não católicos naquela roda que são coagidos a consagrar-se como se forem.
2- Essa proibição da Fifa é de difícil aplicação prática, mas sou contra ela. Não há nenhuma neutralidade quando ela diz como deve ou não se comportar fulano ou sicrano. Dou dois exemplos de manifestações não cristãs que foram toleradas. Aquela dancinha ridícula dos neozelandeses antes de qualquer evento e as celebrações voltadas para Meca dos egípcios ao vencer a Copa da África. Se há intolerância por parte de outras culturas, não é nos policiando que as resolveremos.

Danilo Balu disse...

Fala Gian! Estou ausente na sua seção de comentários, mas leio diariamente seu blog!!

Acho realmente inoportuna aquela reza da seleção. Eu não sou praticante e ficaria meio sem graça em participar daquile cirquinho.

Agora vejamos o caso africano... a fiscalização é algo mesmo MTO complicado. Vc consegue imaginar em uma nação islâmica o campeão da Copa da África rezando um Pai Nosso? Não acha que haveria problemas?? Ainda acredito que um meio-termo se faz necessário.

Abrax

Drunkeynesian disse...

Balu, sabe por quê o RSS do seu blog parou de entregar os textos inteiros (de uns 2 dias pra cá tem vindo só um pedaço)?

Camila Castro disse...

Achei sua visáo do assunto extremamente coerente. No dia do jogo, odiei a comemoração, achei uma vergonha, achei feio... O uniforme da Seleção representa o país, e não as crenças pessoais de cada jogador. Esse papinho de que a FIFA não pode dizer a fulano ou siclano como se comportar é balela, papo furado. Apesar de eu mesma ter ficado com a FIFA querer proibir as cornetinhas dos torcedores sul-africanos... Acho que são dois lados da moeda.

Mas como vc disse, e no dia em que as nações islâmicas começarem a celebrar seus feitos da mesma maneira, como reagirá o mundo?

abraço

Gian disse...

Balu, quanto a haver problemas pelo tipo de comemoração em países árabes, não sei a resposta, precisaríamos ver para saber. Acho que há algo de algo de preconceito da nossa parte para destacar esse altíssimo grau de intolerância por parte dos islâmicos. Até onde sei havia enclaves judáicos em quase todos os países árabes, antes da constituição de Israel, convivendo na perfeita normalidade.
A special report da The Economist dessa semana é sobre o mundo árabe. Não tive tempo de ler ainda, mas deve ser esclarecedor. O link é esse: http://www.economist.com/specialreports/

Quanto ao comentário da Camila Castro, não acho que há uma divergência muito grande no modo como vemos a comemoração dos brasileiros, também acho vergonhosa.
Só que discordo do resto. A seleção é brasileira no nome, mas não é pública. Ele representa o país tanto quanto eu ou você quando fora de nossas fronteiras. Comportando-se bem ou mal, é uma escolha deles, ou temos ingerência na convocação?
A Fifa pode sim, nas competições organizadas por ela, dizer como os envolvidos devem se comportar, tanto que o faz, mas não concordo que deva fazer. Cada indivíduo é representante de si e de sua cultura, uma entidade internacional não pode, na minha opinião, escolher esse ou aquele padrão como modelo a ser seguido. Esse é o meu ponto. Vocês, é claro, podem discordar, como já o fizeram.

CONVICTOS OU ALIENADOS? disse...

Belo texto, parabéns!

Eu preferiria que não houvesse comemoração e direi algo diferente: fica a impressão que Deus "abençoou" a equipe campeã, não é? Quem teria abençoado (ou amaldiçoado) a que não venceu?

Orar/rezar em local público é, também, uma forma de proselitismo que não me agrada. Por que não dar graças num local discreto e particular?

Abraços.

Altamirando Macedo disse...

Balu,
Há tempos, a maior receita gerada pelo pão e circo provinha da indústria da fé.Hoje ela provém da indústria esportiva(Futebol). Ambas estão se unindo e por isto estão surgindo atletas e times cristãos,maometanos, umbandistas,budistas,jainistas, hinduistas e judaistas. A raça humana, pertencente aos sem mente, necessitam disto. Haverá vaga para todas as crenças rezarem ou orarem suas preces ou direcionarem seus trazeiros para qqualquer ponto cardeal.Isto implicará sabermos se o campeão adora o Deus mais poderoso?. He,he,he...

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