quarta-feira, 17 de junho de 2009

Vai um jornal aí, chefia?

Com uma amiga em comum, eu e o Luciano Sobral, o PJ, recebemos o texto sobre o possível fim de circulação de um dos jornais mais conhecidos e tradicionais do país, a Gazeta Mercantil. Acredito não ter folheado o jornal mais do que 5 vezes em toda minha vida, já que se trata de um periódico segmentado do qual não faço parte.

Com o mesmo discurso choroso de uma criança mimada, como bem disse meu amigo Soneca, o autor tenta nos fazer crer que somos nós também os culpados pelos erros de terceiros. O PJ resumiu de forma brilhante e quase inigualável em um curto post sobre o assunto: o jornal se equivoca mais uma vez querendo dizer que os tempos é que estariam errados, como se nós tivéssemos que nos adaptar ao modelo correto defendido. De acordo com o autor, continuou PJ, o excesso de opções para escolher seria algo intrinsecamente por vezes ruim, quando o problema de muitos é justamente não ter nenhuma liberdade ou opção.

O PJ por e-mail contou-nos de um dos métodos bizarros do jornal para pagar dívidas. Ou seja, eles erravam e não era de hoje. O pioneirismo deles foi seu grande mérito, não saber se adaptar a um mundo com a concorrência (do Valor Econômico) decretou seu fim.

Dias atrás postei aqui um texto sobre a circulação de moedas de baixo valor como 1, 2, 5 e mesmo 10 centavos. Um dos autores mais enfáticos ao pregar o fim dessas moedas, argumenta que apenas a inércia ou a nostalgia é capaz de explicar a manutenção desse costume economicamente ineficiente e caro que é o de produzir essas moedas. Até pesquisas de opinião mostram que os americanos gostam dessas moedinhas caras, como se a popularidade justificasse. A falta de um desapego por algo assim ultrapassado nos faria ainda produzir máquina de escrever e LPs. Quem quer custear esse privilégio? Eu não! Mas não é essa a questão aqui.

Vejamos alguns números. De acordo com alguns dados da indústria de jornais, 2/3 dos exemplares circulantes em 1945 eram dos grandes diários das 10 regiões mais populosas. Já em 1962 esses mesmos periódicos possuíam apenas metade da circulação, ainda que a população tenha crescido 45,2% durante o período de 17 anos. Já o crescimento da circulação foi em um ritmo sempre menor, nunca equiparado ao crescimento vegetativo. Outra estatística indica que em 1946 cada lar americano possuía 1,33 jornais ao dia, já em 1963, apenas 1,07. Haveria explicação?

A argumentação dada para esses números seria que o baby boom do pós-2ª guerra fez com que a pirâmide etária ficasse desproporcional e crianças sabemos que não sabem ler. O que era explicação virou expectativa, o mercado torcia para que essas crianças ao crescer virassem leitores habituais fazendo com que a tiragem explodisse. Montaram então um programa “jornais nas escolas” para captar esse mercado futuro, mas o projeto falhou feio.

Mas bem antes dos jornais culparem o declínio das vendas em razão da internet, do iPod e dos vídeo-games já se sabia que haveria um problema. No início da década de 70, duas associações (American Newspaper Publishers Association e a Newspaper Advertising Bureau) diagnosticaram o problema de queda nas vendas já à partir de meados de 1960 e recomendaram uma postura para combater o problema. Pois se antes havia 70 milhões de lares para 60 milhões de tiragem, atualmente há 100 milhões de lares para uma tiragem similar a 1970.

O mais incrível é que o aumento previsto no futuro do tempo de lazer era esperado como uma vantagem já que o leitor iria dedicar mais tempo ao jornalzão de domingo. Mas com o aumento desse tempo e com o aumento da riqueza, a população podia desfrutar de outras formas de entretenimento mais atraentes porque novas ou que foram ficando muito mais econômicas.

E é isso o que muitos jornais não perceberam ou demoraram a perceber ou ainda não souberam dentro da medida evitar. Mas é importante lembrarmos que apesar de lerem menos jornais impressos, as pessoas não estão necessariamente menos atraídas por informação. Muito pelo contrário! Estamos cada vez mais vorazes por informação! O New York Times com tiragem diária de 1,1 milhão teve 25 milhões de leitores em seu website. O que não falta é espaço para quem produz informação, mas no capitalismo é assim, apenas os mais aptos irão sobreviver.

Alguns tentaram ser mais ágeis e se adaptaram como puderam. O New York Times, por exemplo, anunciou tempo atrás uma redução da largura da página após já haver trocado o papel por um mais leve. Além disso, eles já haviam retirado o guia de TV dominical e unificado os diferentes exemplares regionais de domingo. Mas o fato é que nada irá trazer os jornais ao contexto de domínio midiático que tinham antes. Não há impressão colorida, caderno especial, suplemento ou joguinhos que resolva. O que era único, agora vem com concorrência por todos os lados. E a coisa só tende a piorar para eles. E nesse futuro ainda mais difícil, jornais nacionais de grande circulação levam vantagens assim como os locais e pequenos segmentados.

O que não se pode é atribuir a queda das vendas a um declínio do jornalismo. E também não vale culpar o leitor, como fez infantilmente a Gazeta Mercantil. Aos novos tempos, novas pessoas.

1 comentário(s):

PJ disse...

Opa, obrigado pela parte que me toca... o Gay Talese deu uma entrevista sobre o tema esta semana em algum lugar que não lembro, se achar eu te mando.

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