quinta-feira, 4 de junho de 2009

Sobre dinheiro, cartões, moedas e nosso meio-ambiente

Logo na semana que cheguei ao Brasil fui comer em um barzinho. A conta deu R$18,01. Eu não tinha 1 centavo em moeda, mas como acabava de voltar da Europa e lá os valores são pagos respeitando a casa dos centavos, coloquei R$20,05 e fiquei esperando o troco de pouco mais de R$2. A minha moeda de R$0,05 voltou juntamente com os meus R$2 de troco. Foi no mínimo engraçado ver a moeda indo e voltando, como se ninguém quisesse ou ainda tomando diferentes valores em cada direção. Já quando estava em Estocolmo (Suécia) e em Oslo, descobri que lá os centavos existem, mas apenas nos cálculos, pois na hora de dar e receber há o arredondamento. Nada mais coerente.

O brasileiro por sua vez não dá valor a moedas de 1 e 5 centavos, como se elas não valessem nada. Bom, no Brasil do Real não valem mesmo. O brasileiro faz o certo pelas vias tortas. Por quê?

Você sabia que nos EUA eles gastam quase 2 centavos de dólar (U$0,02) para produzir apenas 1 centavo? E eles gastam quase U$0,10 para produzir 1 moeda de U$0,05. Você sabia disso? O problema é que para produzir U$80 milhões em moedas de 1 centavo eles gastaram em 2008 U$134 milhões e para produzir 1,3 bilhões de moedas de 5 centavos (U$65 milhões em “dinheiro”), eles gastaram U$124 milhões. Faz sentido isso?

Não, não faz. Moedas como bem sabemos são feitas de metal e a demanda por cobre, níquel e zinco, matérias-primas dessas moedas, cresceu muito nos últimos anos. As de 5 centavos (nickels) são feitas basicamente de cobre enquanto as de 1 centavo (pennies) são 98% zinco. O preço do cobre triplicou nos últimos 5 anos. O preço do zinco dobrou. Não fica difícil concluir que o custo de produzir moedas subiu muito assim.

Para piorar, os EUA, como já disse aqui em outro post tempinho atrás, dentre os países ricos é aquele que possui as cédulas de mais baixo valor. Eles possuem notas de U$1,00 enquanto na Europa a mais baixa é de 5 euros (quase 6 dólares) e o mesmo vale para o Japão (1000 ienes).

A questão das moedas nos EUA (ou mesmo em países como o Brasil) é que seria possível fazer dinheiro derretendo moedas americanas e vendendo o metal! Mas esqueça! A lei americana proíbe isso! Mas no Zimbábue a lei não proíbe e as cédulas valem menos do que o papel higiênico!

Mas se a questão do absurdo econômico ainda não é argumento suficiente, o que dizer do custo ao ambiente de haver tantas cédulas dispensáveis ou moedas de tão alto custo? Não seria o caso de partirmos cada vez mais para o dinheiro eletrônico? Pois vejamos:

A imensa maioria dos cartões créditos/débito são feitos de PVC. São necessários 4,25g de petróleo para fazer 5g desses cartões. Multiplique isso por 1,6 bilhões, que foi o número produzido nos EUA em 2007 e chegaremos ao assustador número de 45000 barris de petróleo por ano! Não é muito se comparado aos 20 milhões de barris consumidos diariamente nos EUA, por outro lado o número não inclui os inúmeros cartões de fidelidade de companhias aéreas, locadoras e tudo mais. Mesmo assim, comparativamente é um número baixo.

Porém, um dos problemas resultantes é que o PVC raramente pode ser reciclado, ele geralmente é enterrado ou incinerado gerando toxinas. Para amenizar o problema a indústria de cartões vem tentando desenvolver algo menos problemático, porém sem sucesso até então. Mas o problema da resistência do PVC pode ser também sua maior vantagem. Esses cartões podem durar incríveis 8 anos em nossas carteiras! Mas isso é apenas teoria, já que a maioria expira ou é trocada de 2 a 4 anos. Mas vejamos sua maior alternativa, o dinheiro vivo.

Uma cédula de U$5 pode durar em média quase 1,5 anos antes de ser retirada de circulação. Quanto maior o valor, maior a duração. Elas são feitas de algodão e linho que, ao contrário do petróleo, são produtos renováveis e menos poluentes. Opa! Menos poluentes?? As plantações de algodão exigem grandes extensões de terras cultiváveis, além de uso pesado de água, pesticida e fertilizantes. Para produzir 1kg de algodão, por exemplo, precisamos da mesma energia necessária para produzirmos o mesmo em PVC!

Mas em compensação o material usado no papel moeda não são os de primeira qualidade. Ele é feito de material reciclado e com fibras de baixa qualidade. Isso daria uma vantagem para o dinheiro “em cash”, ainda mais se houvesse o fim do uso de moedas e cédulas de baixo valor, certo?

Pode ser, mas qual o efeito prático disso? A menos que você tenha sempre dinheiro trocado e ignore o troco você vai precisar de moedas, é inegável. Mas extraí-las já mostrei ser muito caro além de ser custoso ao meioambiente. 1kg de cobre, por exemplo, gasta 109 megajoules., muito mais do que os 60 megajoules do PVC. Sendo que 41000 de toneladas de metal foram utilizadas em 2008. Mas calma! Boa parte disso é de metal reciclado de moedas velhas.

Estou confundindo você? Com certeza! As comparações parecem um assunto nerd, quase sem fim! Além disso, estou longe de achar que essa seja uma importante questão para ajudarmos nosso planeta. Conforme já disse aqui antes, acho que focar em um problema pequeno como, por exemplo, o de usar cartões ou moedas não é o mote, gastamos muito mais de nosso planeta de outros modos. Mas colocando tudo no papel parece que os cartões são mesmo a maneira ecologicamente mais correta de pagarmos nossas contas. Pra ajudar você não precisa ser radical a ponto de jogar as moedas no lixo cada vez que as recebe como troco, podemos ainda optar por não receber recibos em papel e, sim, apenas eletronicamente, gastando apenas um pouco de energia elétrica. Já o dinheiro por sua vez é transportado por caminhões por milhares de quilômetros. Processo esse que segundo um detalhado estudo suíço é responsável por metade da energia despendida com dinheiro em sua vida útil. Mas logicamente se dividido entre todos, é um impacto per capita muito pequeno. Pra comparar, o Banco Central Europeu quando estabeleceu em 2003 que deveria haver 8 cédulas para cada cidadão europeu, o impacto ambiental per capita dessa medida foi equivalente a dirigir um carro por 1km.

Como pode ver, um campo de estudo mais detalhado pra quantificar o peso e o custo ambiental das duas alternativas ainda está em aberto. Parece, sim, um campo de estudo meio tonto quando há alternativas muito mais simples como acabar com as notas de baixo valor (U$1, U$2) e com algumas dessas moedas caras (1, 2 e 5 centavos). Se você quer fingir que ajuda o meioambiente enganando a si mesmo, pode optar ainda por uma empresa que recicla cartões de PVC com você apenas pagando a postagem.

Mas a maior ironia está mesmo no fato de que optando pelo que parece ser melhor, os cartões, caímos em uma contradição difícil de superar. Já que os cartões de crédito comprovadamente nos encorajam a gastar muito mais por impulso satisfazendo nosso desejo consumista, seu argumento de ser ecologicamente correto cairia assim por terra.

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