terça-feira, 30 de junho de 2009

Pôquer...

No final do ano passado aconteceu com o pôquer de um modo meio despercebido aquilo que já havia acontecido com grande repercussão no Xadrez. Em Las Vegas um programa de computador venceu alguns dos melhores jogadores de pôquer do mundo. Quando um computador 11 anos atrás venceu em uma série de jogos o Garry Kasparov, para muitos o maior enxadrista da história, ficamos achando que a última das grandes barreiras havia sido superada em um jogo.

O placar foi 3x2 (e 1 empate) para a máquina. Além do fator sorte presente no pôquer, outro desafio dessa disputa é o blefe, os “jeitos e bocas” que somente uma pessoa tem. E a grande diferença está mesmo na informação que altera a reação humana. No xadrez você conhece todas as “cartas” do adversário, quando no pôquer você não tem esses dados. O Xadrez é muito determinista, sem o fator sorte e no pôquer as variações de um jogo são tão grandes que você precisaria de semanas ou mesmo meses de partidas seguidas para saber com grande validade quem seria mesmo o melhor dos jogadores sem que dependesse do acaso.

Para que o desafio fosse mais válido foram então reduzidas as possibilidades de sorte. Usaram, assim, o Poker Texas Holdem que é uma versão mais simples do pôquer. Além disso, as partidas foram duplicadas e cada jogo envolvia 2 jogadores competindo simultaneamente contra a máquina, o novo programa Polaris. Para reduzir o peso da sorte, a mesma mão era usada nas duas partidas de forma que cada um dos humanos tinha posições opostas contra a máquina, representada por um laptop. Ou seja, se um dos jogadores pegasse uma mão boa, o outro necessariamente pegaria uma ruim. Somando-se os resultados saía o vencedor homem, máquina ou empate. Vale lembrar ainda que este desafio pode não ter sido o derradeiro uma vez que não foram feitos os cálculos para saber se essa duplicação de mãos é realmente efetiva contra o peso da aleatoriedade no resultado final.

E qual a utilidade de um programa como esse que ganha de jogadores de pôquer? Por ser uma aposta, um programa de pôquer online pode ser muito utilizado em leilões fechados com várias empresas competindo em uma privatização, por exemplo, onde ninguém sabe a aposta do outro. E por que não também, em leilões virtuais como o e-Bay? É bem possível!

O projeto para viabilizar o Polaris demorou 5 anos desde a concepção da ideia. No começo duvidaram da capacidade dele em ganhar contra profissionais do jogo, ainda mais quando em 2007 ele perdeu para profissionais em Vancouver, British Columbia. Um dos méritos melhorados no Polaris foi sua capacidade de analisar os estilos diferentes dos adversários de carne e osso sendo inclusive mais agressivo quando quer forçar a desistência do adversário.

Acontece que não é qualquer jogo que ganha a dedicação e o investimento de um projeto desses, mas o pôquer é assim mesmo, um pouco cultuado, tradicional, diferente e especial. É um jogo que por causa da legislação americana, na disputa do “mundial feminino” (World Series of Poker), por exemplo, os organizadores no casino não têm como proibir a presença de um jogador homem. Assim, um homem pode cair no inusitado de ser campeão feminino de uma competição que deveria ter naturalmente uma mulher como vencedora. Esse dia ainda não chegou, mas já houve alguns poucos homens competindo e chegando longe.

E já em um outro estudo interessante feito com mais de 100 jogadores pela Nottingham Trent University, por exemplo, mostrou que 68% das mulheres que jogam online em sites de jogo de pôquer escolheriam jogar como um personagem masculino, pois assim chamariam menos atenção da “mesa”. Na mesma pesquisa mostrou-se que os apostadores online são muito menos avessos ao contato social do que se supõe, pois apenas 1 em 5 disse achar mais fácil se socializar mais facilmente jogando pelos sites do que na vida real enquanto 2 em 5 disseram que ele é uma grande alternativa para ajudar a escapar dos problemas pessoais e estresse do dia a dia.

1 comentário(s):

++ Rodolfo Araújo ++ disse...

Os jogos de azar normalmente são regidos pelas leis da probabilidade - e nenhum ser humano é capaz de calcular isso melhor e/ou mais rápido do que uma máquina. Nunca ouvi nada a respeito, mas deve ser impossível bater um computador no gamão, por exemplo.

No Xadrez, como a gente vem dizendo em nossos textos, mesmo não havendo sorte envolvida, ainda não há poder computacional capaz de calcular todas as variações. Então a intuição humana ainda consegue nivelar o jogo com a máquina.

No pôquer, talvez a possibilidade de blefe também equilibre um pouco as coisas, mas acho que depois de um tempo, o computador consegue aprender o estilo de um jogador. Se o programa for alimentado com, digamos, todos os jogos de todas as participações do Phil Hellmuth, a coisa vai ficar feia para o lado do humano.

Além disso, o trabalho do Von Neumann sobre a Teoria dos Jogos e a forma como se deveria apostar no pôquer, de acordo com qualidade das suas cartas também pode dar vantagem à máquina.

Abraço, Rodolfo.

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