terça-feira, 16 de junho de 2009

Mais Vinho e mais enganação! E todos estavam sóbrios!

Se tem uma coisa que eu acho que nunca vou fazer nem amarrado é curso sobre vinho. Acho que há 3 tipos básicos de pessoas que englobam uns 99,7% dos que se prestam a isso: os novos ricos, os chatos (e pedantes) e os desinformados.

Eu já falei sobre o vinho aqui em um outro post um tempo atrás. O vinho é uma daquelas bebidas em que achamos que sabemos diferenciar o bom do ruim de uma forma mais apurada do que o preço que o mercado aplica há muito mais tempo do que o mais antigo dos cursos para amadores. A diferença entre quem toma vinho ou outra bebida como a cerveja, por exemplo, é que “entender” de vinho passou a ser uma “arte”, chique, que quando feita por amadores é feita em sua maioria por gente muito chata que agregou entre seus novos costumes ouvir música clássica, beber vinho e jogar golfe achando que é esporte.

O homem definitivamente não é um animal com seus sentidos apurados. Em uma hipotética Olimpíadas Sensoriais entre os animais não nos sairíamos nada bem nas modalidades olfato, paladar, visão e audição. Tirando esta última que acredito não ser importante para sentir o sabor de um alimento ou bebida, diferentemente de muitos outros mamíferos não sabemos distinguir mais do que meia-dúzia de componentes de uma mistura. O que leva tanta gente a achar que um curso prático de dar narigadas em taças caras o habilitaria a reconhecer o bom do ruim identificando aromas e sabores com a precisão de um predador?

O que muita gente não sabe é que o mercado de vinhos, antes estagnado, ganhou uma importância recente, Mas ele é um comércio milenar e tem seus preços regidos por profissionais do ramo. Sendo assim, o que o leva achar que há muito vinho realmente bom dando sopa por preços módicos? O vinho não é um produto que foge da lei do mercado, o que é bom custa caro e o que é ruim é mais barato. Vinho de 1940 de boa safra, é caro, o Sangue de Boi vendido em garrafão, barato. Vinho argentino é barato entre outras coisas porque a moeda deles vale menos que uva passa.

Eu mal bebo vinho porque me dá sono, apesar de até gostar, mas sempre desconfiei que era pura balela achar que dá pra achar tesouros não descobertos. E não são poucos os estudos que mostram que:
  1. Os vinhos bons são mesmo os mais caros;
  2. Nós amadores por limitação humana e de treinamento não sabemos diferenciar qual vinho é qual;
  3. Nossa apreciação ao vinho está diretamente ligada ao preço que atribuímos a ele, quanto mais caro, melhor é nossa avaliação, mesmo que seja a mesma bebida.

Então o mala vai lá, fica cheirando rolha, vendo qual taça combina com o quê, dá características bizarras ao sabor que ele acha que sentiu, “chucha” o nariz dele com vinho tinto e faz tudo isso com cara de conteúdo. Se você é mais prático como eu, você vai comprar um vinho vagabundo (daqueles que virariam vinagre em menos de 1 semana) e vai servir os seus convidados achando algum pretexto pra dizer que pagou quase R$100 a garrafa.

É mentir agir assim? Sim! Mas é uma mentira boa! Você não queimará no inferno, vai economizar e ainda vai deixar seus convidados muito mais felizes do que se dissesse a verdade. Eles querem ser enganados. Mais do que isso, eles gostam! E você ainda vai gargalhar por dentro com convidado dizendo que sentiu o sabor “adocicado e rebelde do carvalho de outono”.

Mas isto seria apenas com o vinho?
Não mesmo! Já disse, o vinho vem com um chato junto, mas a falha de avaliação é geral e irrestrita! Até a Coca-Cola se passa por Pepsi (e vice-versa!) em testes cegos. Mas seus amigos não fazem curso de degustação de refrigerante do tipo cola. Ou seja, a satisfação com o refrigerante também está ligada ao fato de se VER a latinha! Incrível, não?

E tem mais? Sim! Sem efeito estatístico, um grupo de amigos meus realiza já faz uns 3 anos testes cegos com as marcas de cervejas mais consumidas e conhecidas deles. Nos churrascos eles proíbem “venenos” como a Belco ou a Krill, mesmo que nos testes eles não consigam diferenciá-las das marcas “permitidas”.

Quer mais? Dan Ariely em seu excelente Predictably Irrational fez testes adicionando vinagre em cervejas e os testados quando induzidos sem saber do toque de classe disseram que era melhor do que a outra cerveja sem vinagre. Mas você conhece muita gente fazendo curso de degustação de cerveja? Não, porque entre outras coisas essas pessoas têm dignidade!

Tem mais! Um teste cego com vodkas provou também que não diferenciamos a qualidade de modo confiável (outro teste cego aqui também). E pra fechar, o melhor dos casos! Um teste para avaliar se as pessoas conseguiam descobrir qual produto entre 5 marcas de patê era na verdade comida de cachorro. Apesar da comida de cachorro receber a pior classificação para 72% dos indivíduos, eles NÃO foram capazes de apontar qual seria a comida de cachorro! Apenas 1 em cada 6 conseguiu!

Sendo assim, o que o leva a crer que dá para classificar vinho? Vá pelo preço! Para provar minha hipótese deixo aqui um caso muito famoso e interessantíssimo. Ele é extremamente longo, mas quase um clássico. Se profissionais do vinho muito bem pagos foram enganados no assunto que dominam, a quem você quer enganar?

7 comentários:

PJ disse...

Na Piauí tem uma matéria interessante que cita um teste feito com água - os resultados são os mesmos. Os seres humanos são uns picaretas, mesmo.

http://www.revistapiaui.com.br/edicao_33/artigo_1048/%C3%81gua_dura_em_garrafa_mole.aspx

Soneca disse...

hahaha Concordo inteiramente com a cerveja... todo esse povo do 2a2a que reclama de Kaiser nunca conseguiria diferenciar Kaiser de Skol.

Mas sobre a lei de mercado dos vinhos, discordo, porque os preços não refletem apenas o sabor, mas também um milhão de outras coisas ligadas mais a status do que sabor e qualidade.

É que nem relógio. Hoje um relógio feito na China de maneira não tão picareta consegue replicar a precisão e durabilidade de um Rolex. E pode muito bem copiar o design, então porque o Rolex custa 100x o preço? Nada a ver com a qualidade. Só status.


Resumindo, acho que você consegue sim achar vinhos tão bons ou até melhores a preços bem mais baratos que vinha com mais status.

Harry disse...

Somelier Balú,

Bebo esse post com notas de orvalhos, que caracteriza um ser encorpado com palato adocicadas, um tanto quanto revoltantes num paladar condensado!

Nota-se ainda a cor vermelha tórrida e vibrante!

Meus sinceros comprimentos,
Harry

Danilo Balu disse...

Por partes, Soneca. A precificação de vinho e relógios não são mto simples mesmo. Qdo eu digo que qto mais caro melhor, não estou sendo 100% rígido. Deve ter vinho caríssimo que é ruim, mas não existe nenhuma preciosidade que seja barata. NENHUMA. Deve haver vinhos com preço bom porque justamente não são assim um espetáculo.
Com relógio assim como com os vinhos o status pode custar caro, mas a lógica funciona somente numa direção: os caros que são mto caros sem serem tão bons.
Eu sou um apaixonado por Rolex e não há na China a MENOR possibilidade de se fabricar com marca local qq genérico semelhante a um Rolex. Mas ambos marcam a mesma hora. O Rolex é caro por ser uma jóia, não por marcar horas. É o serviço, o status, bablabla...
Mas acho que entendi o seu pto. Queria apenas enfatizar que curso PR se achar vinho bom e barato é uma tremenda bobagem. É mais simples vc comprar pelo preço e falar aos seus amigos que vc pagou ainda mais caro do que o preço do rótulo. Mas apenas não caia na bobagem de achar que vai achar vinho barato melhor do que vinho caro porque nesse mundo ninguém quer perder dinheiro, pois se fosse bom mesmo, seria caro.
Abrax

Soneca disse...

Balu, mas acho sim que é possível achar vinho bom que AINDA não ficou caro.

Isto é, uma vinícola nova, ainda sem nome, que faz vinho de qualidade, mas não pode cobrar 200 reais a garrafa porque ninguém conhece. Vai ter que criar fama, tradição, reconhecimento até conseguir cobrar os 200 reais.

Acho sim que se você focar no que importante, como qualidade, consegue achar preciosidades.

Cito o exemplo do meu chefe, que tem uma BMW. Ele diz, taxativamente, que o Hiunday Azera é melhor, em TODOS os aspectos que o BMW dele. Mas o Azzera custa 80 mil e o BMW 320 mil. Porque? Pura simplesmente status de ser BMW.

Ele fala que se fosse hoje, compraria um Azzera. Ele é categórico, o Azera ganha em TUDO.
Mas se ganha em tudo, porque eles não cobram 300 mil também?? Porque eles não tem a marca da BMW, que se relaciona só com luxo. A Hiunday também tem carros populares, aí a marca não dá o mesmo status que a BMW.

Ou seja, é um caso onde se acha algo MELHOR, por 1/4 do preço.
E não é só meu chefe que acha não, a 4 Rodas tb fala que o Azzera é o melhor sedã luxo que tem no mercado.

Enfim, se continuar com essa superioridade, daqui a uns bons anos talvez o Azera passe a custar 300 mil, mas agora, eles não conseguem cobrar isso.

Danilo Balu disse...

Novamente por partes...
O pto, Soneca, é que vinho se diferencia por safra, terreno de plantio e outras coisas técnicas. Carro (ou relógio ou outros produtos) vc tem outros aspectos. Vc está ABSOLUTAMENTE certo qdo diz que alguma vinícola nova cobra temporariamente menos porque nova, mas tb temos que lembrar que algumas regiões produzem os melhores vinho do mundo por causa do solo e ali não haverá nunca uma nova vinícola. Acho, sim, possível achar vinhos que AINDA não ficaram caros por motivos MTO particulares, assim como há quem cobre caro pela tradição, mas NO GERAL pagando mais vc leva mto mais. E achando que vc pagou mais vc leva SEMPRE mais.
O exemplo do Hiunday x BMW pode valer em parte apesar de achar um despropósito 80k x 320k. Um carro é 4x melhor do que o outro? Não creio... mas o BMW tem além da tonelagem em metal o preço de andar de BMW, vc está mais do que certo nisso. Não acho nunca que o Azera vá um dia custar os tais 300k simplesmente porque 80k é o preço de um carro como esse, os outros 220k é só para carro alemão com décadas de tradição no mercado de luxo automotivo.
Abrax

Danilo disse...

Balu,
qual a fonte dos 99,7% citados no inicio do texto? Tô procurando faz tempo na internet e não achei nada nessa linha?
Obrigado desde já.
Atenciosamente,
Danilo Bessa

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