De um país tão fechado à comunidade internacional como o Irã, não se pode confiar em tudo. As grandes redes de TV gostam de lembrar ao telespectador que as imagens que estamos vendo recentemente sobre os protestos locais não podem ser garantidas como legítimas porque foram feitas por amadores que as enviam de seus celulares. Mas mesmo assim, todos admitem que haja mais do que fortes evidências de que as eleições iranianas não têm nada de legítimo. Quer dizer, nem todos! Lula acha que aquele monte de gente morta nos protestos é porque esses golpistas não sabem perder.Mas como saber se houve fraude se a imprensa internacional não tem muito acesso? Para legitimar o que todos chamam de fraudulenta, o governo iraniano distribuiu alguns números à imprensa internacional. O Ministro do Interior disponibilizou dados de 29 províncias e com esses dados alguns pesquisadores analisaram 116 números dos 4 principais candidatos (Ahmadinejad, Mir Hussein Mousavi, Mehdi Karroubi e Mohsen Rezai) em cada província.
Pelos números vemos que Ahmadinejad foi surpreendentemente bem nas áreas urbanas (incluindo Teerã) que são sabidamente as regiões dos maiores protestos e onde sabem que ele encontra maior impopularidade e rejeição. Mesmo em Tabriz, capital da província e cidade de um dos opositores (Mousavi), ele foi mais bem votado.
Karroubi, foi outro que teve baixa votação em sua terra natal (Lorestan) e onde os conservadores (situação) tiveram baixa votação em 2005. Mas desta vez Ahmadinejad teria tido 71% dos votos! Outro ponto que chamou a atenção foi que em um país que recentemente teve um tão heterogêneo padrão de votos o vencedor tenha tido relativa consistência de desempenho. Muito estranho.
Como agora o governo iraniano já assumiu que algumas cidades realmente tiveram mais votos que eleitores, então a suspeita passou a ser que o Ministro do Interior teria inventado números a portas fechadas. Como saber disso apenas com o que foi divulgado?
Para analisar isso, os autores olham apenas para os 2 últimos algarismos do número final de votos mesmo sabendo que o que dita o vencedor é o numeral mais à esquerda. Não precisamos ser estatísticos para saber que a distribuição dos números (0, 1, 2, 3...) como
último algarismo deveria ser uniforme e em torno de 10%, então se na maioria das províncias temos muitas parciais terminando em 5, por exemplo, é chegada a hora de desconfiarmos.E como mesmo o fraudador sabendo disso, o seu rastro se manteria? O problema é que nós humanos somos ruins ao inventar números! Alguns psicólogos em pesquisas descobriram que quando temos que fazê-lo tendemos a preferir uns algarismos a outros. Há nos números iranianos divulgados um excesso de 7 (17%) e poucos 5 (menos de 4%) como último algarismo. A chance estatística de isso acontecer em uma eleição limpa é da ordem de 4%! Para que tenhamos uma comparação, nos EUA ano passado nenhuma vez houve um algarismo acima de 14% ou abaixo de 6%.
Antes fosse tudo. Nós humanos também somos ruins para inventar números não adjacentes (64, 37, 84...). Na média eles deveriam ser aproximadamente 70% dos casos. Na eleição iraniana eles foram 62%, algo que esperamos acontecer apenas em 4,2% das eleições legítimas.
Visto separadamente a análise desses números gera suspeita, visto juntos, podemos dizer que a chance dessa eleição ser limpa no Irã é de algo como 2%. Ah, esses golpistas, não é, Lula?

1 comentário(s):
Muito bom o seu blog. Acabo de citar esse post em 2 tuitadas: http://twitter.com/RaphaRB/status/2474611135 e http://twitter.com/RaphaRB/status/2474678668
Pretendo visitar sempre!
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