segunda-feira, 18 de maio de 2009

Espera... como você disse que se chama?!?

Adamasflor. Esse é o nome pelo qual chamávamos algumas vezes meu grande amigo Shazamm quando estávamos em alguma competição de atletismo. Não à toa ele preferia o apelido de Shazamm. Mas na verdade o nosso falso super-herói se chama Wágner, mas ficou conhecido também foi pelo nome bizarro que recebeu emprestado de amigos. Mas e se ele realmente se chamasse Adamasflor? Você acha que a vida dele poderia ser pior ou mais difícil? Teria ele conseguido sucesso profissional ou o diploma de Engenheiro na mais importante universidade do país? O nome, enfim, pode atrapalhar? Pode ajudar?

Não pretendo no vácuo da eleição de pior nome do ano entrar no mérito do sobrenome de famosos que sabemos ajudar abrindo algumas portas. Não queiramos também entender o que leva alguém a dar o nome de Adamasflor para um indivíduo. Aliás, se serve de consolo, em muitos países você não pode sequer escolher livremente o nome e o sobrenome. Estatística curiosa: na China 100 sobrenomes cobrem 85% da população enquanto 70% da população americana é coberta por 70mil sobrenomes! Ou seja, nos países comunistas eles se preocupam tanto com você que até o nome alguns controlam. Eles não querem que você se atrapalhe em suas escolhas. Eles gostam tanto de você que até querem fazer as suas escolhas! Mas obviamente que se você for discordar ou protestar publicamente, terá uns 3 dias para se despedir da mamãe, ser julgado e pagar a bala que vão meter na sua nuca. E tem gente que gosta do modelo, vai entender...

Bom, continuemos! Muitos parecem ser os países que tentam proteger a criança da sanha idiota dos pais por nomes bizarros. A Alemanha recentemente proibiu nomes longos e bizarros. Mas exemplos de famosos não faltam, que o digam Baby Consuelo e Marisa Monte. Além de impossibilitarem que o registro seja feito, no futuro se a pessoa provar que sofre por causa do nome recebido em muitos lugares é possível trocar por algo mais comum. Os chineses e descendentes vêm trocando por nomes americanos e outros asiáticos “criam” uma versão ocidentalizada quando emigram. Mas é na falha do “filtro” legal que vem a amostra dos estudos.

No livro Freakonomics, os autores discorrem sobre um estudo muito bom do Steven Levitt que vem a concluir que o nome obviamente não é impeditivo ou um grande determinante do futuro da pessoa. Mas a resposta é mesmo assim tão simples? Nem ele pensa isso!

Regressemos um pouco leitor! Faça um exercício na próxima vez em que for ao McDonald's tomar seu Top Sundae: repare nos nomes que verá nos crachás! O brasileiro tem uma capacidade incrível de criar nomes bizarros. Saia conferindo nomes de famosos como Cafu, Sílvio Santos e duplas sertanejas (qualquer uma)...

Essas pessoas têm todas uma característica em comum: eram muito pobres. O nome sabemos (sem falsos moralismo!) que pode dizer um pouco da classe social da pessoa. Veja você a quantidade de W's, K's e Y's utilizados de forma bisonha mesmo antes da nova revisão ortográfica. Não faz muito o jornalista Roberto Pompeu de Toledo em um artigo interessante escalou duas seleções brasileiras apenas com nomes bizarros! E o que dizer então do deputado Onaireves que tem esse nome que é a inversão do nome do pai Severiano? Nome esse aliás muito popular no Nordeste cuja população também tem o costume de fazer combinação com os nomes do pai e da mãe para criar o nome do rebento e disso, obviamente, saem algumas outras pérolas assustadoras. Mais uma vez, apenas lendo um nome “combinado” você já consegue dizer com certa precisão se a pessoa é nordestina ou filho de casal nordestino. E novamente sem falsos moralismo voltamos à questão da origem dos nomes que é onde é preciso chegar.

No sensacional The Logic of Life, Tim Harford discorre sobre sua teoria de preconceito racional em um experimento bem interessante falando sobre o efeito cor da pessoa na escolha de candidatos a emprego. Em um teste houve associação de uma cor hipotética do indivíduo testado com seu grau de estudo. Assim, para uma cor imaginária (indivíduos verdes ou roxos, por exemplo) havia uma correlação estatística bem alta mas não de 100% do grau de estudo dele (um grande número de seres verdes, por exemplo, possuiriam um nível de estudo alto ou baixo). Por que isso? Assim, haveria uma lógica no preconceito diante da origem do candidato hipotético. Dessa maneira a pessoa já “adivinharia” a formação escolar da pessoa apenas pela característica física (cor). Com isso Hardford estaria justificando o injustificável racismo? NÃO! Ele está querendo mostrar qual a base da lógica de parte daqueles que o aplicam. Onde quero chegar?

Em um outro excelente estudo foram enviados milhares de CVs hipotéticos a 2 importantes jornais americanos e esses CVs possuíam nomes característicos de negros e brancos e foram igualmente distribuídos em níveis de CVs, ou seja, havia nomes brancos com CVs bons e ruins e o mesmo para negros. Qual foi o retorno? Os nomes “brancos” receberam um retorno de ligação 50% maior que os nomes negros! Para isso alguns autores justificam tanto aquele preconceito de quem não quer contratar um negro por causa da cor dele ou então daqueles que resolveram ganhar ou economizar tempo indo atrás de candidatos que estatisticamente possuem mais chances de terem um CV bom em função da maior escolaridade média da população branca. É o tal preconceito lógico ou racional, mas sempre preconceito. Seria o mesmo que apenas sabendo o sexo da pessoa, os avaliadores presumissem com certeza que um homem está mais apto do que uma mulher para uma orquestra (*nesse estudo talvez falte o fato de hoje mais mulheres praticarem a música clássica, mas não deixa de ser um preocupante indicativo).

O que quero dizer é que o nome PODE atrapalhar, sim! Assim como na orquestra avaliaram não pela música, mas pelo sexo, no experimento avaliaram a pessoa pelo nome (na forma indireta pela cor) e isso prejudicou o indivíduo.

Veja bem, se até a existência de preconceito com latinos se mostrou presente em um estudo do mesmo Levitt, o que nos leva a achar que NOMES latinos também não atrapalhariam o candidato?

Aplicado no Brasil dá para dizer assim que nomes tipicamente nordestinos poderiam atrapalhar no caso de haver muitos preconceituosos com pessoas dessa origem? E nomes mais comuns na população pobre? Atrapalhariam? Não sei. Não dá para chegar em conclusões sem pesquisas que provem. Citar nomes bizarros de pessoas que obtiveram sucesso por si só não mostra nem prova o contrário. Dom Perignon Champagne? Marijuana? O sucesso ou fracasso de alguns não seriam a resposta? Não mesmo!

Não é apenas Levitt que acredita que os nomes não são decisivos. Parecem realmente não ser decisivos ou determinantes. Por trás de quem escolhe o nome há toda a família (ou falta dela e de alguma estrutura) que tem um papel muito grande no estilo de vida que a criança terá. Mas em um mundo em que cada vez mais você tem a chance de avaliar a pessoa sem nem ao menos vê-la, parece não estar ainda bem claro que o nome, sua primeira apresentação, não vá fazer com que ela receba um rótulo que muitas vezes não é nada condizente com o conteúdo.

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