sexta-feira, 8 de maio de 2009

Comprando Indulgências 2

Fui surpreendido dia desses com um artigo do The Guardian justamente na seção de meio-ambiente. No referido artigo, o autor George Monbiot fala não entender ao certo tamanha mobilização de algumas pessoas em campanhas contra o uso de sacolinhas plásticas daquelas dadas em supermercados. Eu fiquei surpreso por causa da “defesa” desse produto tornado vilão e também porque ele rebate alguns dados que eu já havia colocado aqui em um artigo recente contra o uso delas.

O principal ponto do autor é interessante: as sacolas não têm esse nefasto impacto que pode parecer e, além disso, há muitos outros males que são muito maiores e que poderíamos igualmente combater. Há aí uma meia verdade, pois ele tem razão, mas o fato de não ser o problema número 1 não faz dele tão menos grave. Além do que é um problema de fácil contorno. E é esse justamente o segundo, melhor e mais interessante ponto do autor, a tal facilidade do problema.

Segundo Monbiot, há uma certa mobilização contra os vícios nocivos ao meio-ambiente apenas quando eles são facilmente contornáveis. A sacolinha (ou o não uso dela) seria o nosso modo indireto de compra de indulgências. Escolheríamos assim algo que não causa tanto estrago quanto parece, ainda livramos pela nossa consciência nossa alma de ir arder no inferno e assim podemos continuar cometendo nossos verdadeiros pecados contra a Mãe Natureza, justamente aqueles que nos dão mais conforto e são muito mais difíceis de serem contornados, ou você estaria disposto a abrir mão do carro sempre? Reduzir a potência do ar-condicionado? Como são chatos esses.... ecochatos! Nem meu bife que utiliza milhares de litros de água e acres de terras clandestina no Cerrado/Pantanal/Floresta Amazônica para produzi-lo eles querem me deixar comer em paz!

Ou seja, o combate à sacolinha é um passo, mas totalmente insuficiente e insignificante. O fato é que ao menos que você seja 100% um “caxias de marca maior”, você comete diariamente crimes contra o uso “verde” de nossos recursos naturais. E foi nessa linha que encontrei também um artigo que discutia com meu amigo Soneca.

Muitos anos atrás houve a criação de websites do tipo “clique e ajude uma causa”. Nesses sites você clicando indiretamente doa dinheiro pelos patrocinadores do website baseado na quantidade de cliques. Há de tudo, clique árvore, clique fome, clique câncer de mama...

Eles funcionam? No começo parece que funcionaram, mas como em todos os campos da atividade humana há muitos picaretas e a concorrência aumentou muito. Independente disso, seria correto então fazer disso o nosso altruísmo? Bom, o Soneca que trabalha no 3o setor disse que não os utiliza pelo mesmo motivo nobre que o autor utiliza no texto, aqui porcamente traduzido por mim:

...essa ajuda seja talvez o melhor exemplo de slacktivism: é fácil, é um ato indolor (pra quem pratica) que nos faz sentir como se estivéssemos fazendo nossa parte por um mundo melhor com o mínimo de esforço mental, físico ou investimento financeiro (…). Simplesmente clicando (nestes websites) você pode oferecer modestas ajudas financeiras (às instituições), mas isso não irá nos proporcionar o mundo que desejamos ver.

Por que os autores Patty Stonesifer e Sandy Stonesifer afirmam isso? Seria apenas porque mesmo um religioso clique diário gere apenas cerca de U$10 por ano? Não creio. Assim, tal qual defendido no primeiro artigo que citei aqui, as pessoas querem o mais fácil, o cômodo, aquilo que dê menos trabalho e não altere sua rotina egoísta mesmo que seja para no final de semana em que ela não acesse o site para comprar suas indulgências com um mero clique, ela atropele um guaxinim enquanto dirige sua picape que faz 1 quilômetro por litro de diesel pelas trilhas de uma mata virgem.

Estaria aqui eu então dizendo que os OUTROS não preservam a natureza da forma que deveriam? Outros, não! TODOS nós! Eu incluso! Eu provavelmente tenho tanta culpa quanto o rico, o pobre, o informado, o ignorante ou o ecochato. Uns mais, outros menos, mas desse mal TODOS sofremos, por isso não dá pra apontar o dedo.

Eu sou meio radical em algumas teorias, eu sei, mas por não haver almoço grátis nessa vida, acho que a única solução seria uma taxação altíssima sobre os produtos/recursos que mais degradam nosso planeta. Esperar do livre mercado uma regulação parece que demorará mais tempo do que podemos realmente esperar. Lendo um artigo do sempre lúcido Marcelo Gleiser, temos alguns números bizarros do que é preciso em tão curto espaço de tempo. Exemplos? Para acompanhar a demanda energética de um modo “verde” são necessários 10 mil reatores novos a uma média de um reator construído dia sim, dia não até 2050. Já com a energia solar, a mais ineficiente no momento, para atingirmos a meta precisaríamos cobrir 1 milhão de telhados por dia até 2050! Difícil? Impossível! Ou seja, não temos muito tempo para apenas partir para a conscientização, temos que morder no bolso!

O Soneca adora uma frase do Gandhi que é a famosa "Seja a mudança que você quer ver no mundo". Eu prefiro a frase do meu ídolo Michael Jackson bancando o gospel na canção “Man in the Mirror: Se você quer fazer do mundo um lugar melhor, olhe para si mesmo e então faça uma mudança (*If you wanna make the world a better place, take a look at yourself, and then make a change ).

Mas isso por si só não resolverá! Esqueça apenas boas-ações! Elas são paliativos! Não adianta pedir que não roubem! Você precisa fazer com que o preço real para roubar seja alto demais, precisa fazer com que não compense, que seja coibido, por isso acho a taxação e uma redução tributária nas alternativas “limpas” a única saída. É só então jogar todos os preços lá pro espaço? Também não é assim, tem que ser algo que seja mesmo um incentivo. Se você, por exemplo, começa a cobrar passagem para que utilizem o elevador e assim todos o abandonem para gastar menos energia elétrica, o efeito disso pode ser ainda pior com o aumento da demanda energética na forma de alimentos. Ou seja, tem que ser tudo pensado, planejado.

Por fim, apesar de gostar muito do Gleiser, fica aqui uma bronca que ele nunca vai ler: ele como um típico desinformado que NÃO é e nunca foi, acabou citando o fato dos EUA não terem assinado o Protocolo de Kyoto. Ô Gleiser, um outro país também não assinou e você não falou nada. Qual o problema com a Austrália? Por que não citá-los? Mais: nenhum, repito, nenhum, NE-NHUM, zero, ZE-RO, nem um mísero país do Tratado cumpriu com as metas estabelecidas e ASSINADAS. Por que as pessoas NUNCA lembram disso? Ainda mais. Os EUA não assinaram e não tinham nada a cumprir, outras centenas de nações assinaram e não cumpriram. Ainda mais: se assinassem, os EUA causariam uma queda momentânea na bolsa, isso sim um custo para todos, assinantes ou não, cumpridores do que assinaram ou não. Por que falo isso? Pra mim só tem uma razão. Na verdade são duas. A primeira é um misto de antiamericanismo safado com desinformação pura. Mas a segunda é o que mais me intriga e diz mais sobre nós mesmos. Dizem que se todos os povos tivessem o estilo de vida americano, precisaríamos de cerca de 14 planetas. Porém, veja só, se tivéssemos o estilo de vida da MAIORIA dos países ricos ou então se consumíssemos o que a classe média paulistana consome, também precisaríamos de mais de um planeta! Ou seja, o que incomoda parece ser não o estrago que fazemos ao planeta, mas sim que outros (no caso os EUA) façam de uma maneira maior do que a nossa, mesmo que a nossa já seja o suficiente para destruir tudo. É uma espécie de pensamento do tipo “se ele pode, por que eu não?”. Não há nada de nobre na preocupação com as estatísticas desfavoráveis à natureza, parece ser apenas pura vontade de transgredir. Assim como o nosso próximo já vem fazendo.

4 comentário(s):

++ Rodolfo Araújo ++ disse...

Direto ao ponto, Balu: confessamos nossos pequenos delitos para esconder os verdadeiros pecados.

Os europeus, por exemplo, construíram as riquezas de seus países explorando Américas e África. Se querem realmente consertar o problema, então paguem por isso. Devolvam nossos tesouros.

Não adianta ficar apontando dedos e fazendo acusações de que o Brasil destrói a Amazônia. Ora, somos pobres e fudidos e precisamos comer. Se vamos derrubar toda a Amazônia e incendiar o Pantanal para isso, paciência. Nós não tivemos a chance de devastar o mundo nem escravizar povos para acumular uma riqueza que nos permita criticar os outros agora.

Parece o cara que chegou lá em cima e agora está chutando a escada para ninguém mais subir.

Por falar em Austrália, que tal lembrar daquele enorme deserto? Ele já estava lá, daquele tamanhão todo?

Vamos criar o "Clique-não-enche-o-meu-saco!" Francamente...

Abraço, Rodolfo.

Danilo Balu disse...

Adoro essa frase!! "Confessamos nossos pequenos delitos para esconder os verdadeiros pecados."

Diria tb que confessamos os pequenos porque os gdes dão um trabaaaalho... rsrsrs

Eu não sou o maior adepto da "América roubada", mas é inegável que os europeus/americanos estão em uma posição bem cômoda qdo são justamente eles os consumidores que mais pressionam os crimes ambientais.

Abrax

Marcos Sanches disse...

Excelente texto!!! A galera pega o carrão para andar 2 quadras até o mercado e comprar um pacote de macarrão e só porque está com a sacola reciclável acha que está fazendo a sua parte... mundo de hipócritas...

Cara, eu queria ver um cálculo comparativo entre o quanto um brasileiro e um canadense danifica o meio ambiente, e depois uma pesquisa comparando a consciencia ecológica/ambiental de cada um.

Abracos

Marcos

Alexandre C. Serpa disse...

Tarde Balu,

fiz um comentário no post do imposto verde, dizendo exatamente para começarmos com as 'coisas pequenas' ou 'os pequenos delitos' do Rodolfo Araujo.

Quero só complementar que concordo que isso é paliativo, mas o ponto importante é a palavra 'começando'. A chance de se criar momento/ inércia começando devagar é maior, e a probabilidade de os pequenos sucessos nos levarem a um patamar mais alto de requerimentos também é maior (em contrapartida, a chance de se desiludir tentando começar com o mais difícil é muito grande!).

Abraços

Serpa

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