quarta-feira, 20 de maio de 2009

Bárbaro, Seabiscuit, bárbaro!

"Perhaps America has become so wrapped up in Barbaro's struggle to survive because, in a time in which we are seeing so much loss in the world, we have a much greater need to see someone pull through.(...) Perhaps, if this one animal survives, we will feel less helpless, and feel that there is some justice. I think that's why millions of people, many of whom had never heard of Barbaro before the Preakness, are hanging on every report out of the hospital where the horse is fighting for his life."

Laura Hillenbrand.

Me lembro até hoje, acabava de chegar pela primeira vez à Europa (Espanha) e lia a revista Newsweek quando vi estampada uma foto chocante do cavalo Barbaro (*aqui na foto ao lado ainda saudável) quebrando sua perna dianteira direita metros depois da largada do importantíssimo Preakness Stakes.

Barbaro é um daqueles cavalos fenomenais que de geração em geração faz um país como os EUA prestar ainda mais atenção às corridas de cavalo. Ele era o Ronaldo que relincha, o Zidane que come alfafa, o Maradona que também precisa de um cabresto.

No final de semana que escrevo esse post foi o sábado onde milionários e mulheres vestindo chapéus de gosto duvidoso se enfileiram em Louisville, para o 135o Kentucky Derby, naquela que é chamada em um país apaixonado por essas corridas, de "The Most Exciting Two Minutes in Sports"! Ou ainda como disseram no Washington Post "is the most stressful race in America".

Naquele Maio de 2006, Barbaro sofreu uma fratura horrível que o fez se submeter a uma cirurgia de 5 horas e a 12 pinos em sua perna que havia se quebrado em 20 lugares em corrida com transmissão ao vivo para todo o país. No momento do acidente a comoção do narrador e dos que acompanhavam foi geral. O veterano jóquei Edgar Prado imediatamente viu a gravidade do problema e apoiou o cavalo em seus ombros como pode para que ele não mais tocasse o solo, o que agravaria ainda mais a lesão.

Eu não entendia muito bem as razões de se sacrificar um cavalo que se acidenta. Mas a recuperação deles é mesmo muito mais complicada. Primeiro porque há um altíssimo risco de infecção e o cavalo pode não esperar tempo suficiente para voltar a apoiar a perna antes de sua adequada recuperação. As infecções são ainda mais graves em fraturas expostas (que não foi o caso do Barbaro). Nas expostas há contato de areia e grama com os tecidos do animal gerando infecções. Para piorar, não há muito sangue circulando na parte inferior da perna do equino e uma lesão pode destruir os poucos vasos sanguíneos da região, trazendo ainda mais complicações por não haver mais no local o sistema imune a combater infecções. Antibióticos também são difíceis de administrar já que os cavalos são muito pesados, necessitando assim grandes doses que irão destruir a sua flora intestinal, trazendo mais complicações e diarreia, além do problema de interação medicamentosa com os analgésicos, podendo gerar muitas úlceras.

Depois disso ainda há o retorno da anestesia. Há a opção de mergulhá-lo em uma piscina com água morna, como fizeram com Barbaro. Como nem todo cavalo é bonzinho, há o risco dele assustado se machucar como aconteceu com o a grande e lendária Ruffian em 1975 quando ela quebrou uma segunda perna boa (!!!) no processo. Passado tudo isso há ainda um problema muito comum com atletas humano que para proteger o membro lesionado se compensa sobrecarregando o outro. Nos cavalos a consequência disso gera a Laminitis, um problema terrível para eles.

Ou seja, mesmo com todos os milhões de dólares investidos nesses animais, o que parece ser uma “simples” quebra de perna pode significar o fim da carreira de corredor, pois são pouquíssimos os casos de retorno com grande desempenho e acaba mesmo em morte do animal, como aconteceu com Barbaro apenas 8 meses após o acidente daquele fatídico 20 de maio de 2006, exatos 3 anos.

Se houvesse saída, leitor, acredite, esse cavalo não seria jamais sacrificado! Nem tudo é um filme de Hollywood como o forçado e fraco "Sonhadora" (The Dreamer: inspired by a tue story, EUA 2005), filme que romantiza algo tão grave e que foi baseado beeem de longe na história da égua Mariah's Storm.

Mas não existiria alguma outra saída para esse problema de lesões? Desde 2003 foram registradas 5 mil mortes, repito, 5 mil mortes de cavalos corredores! O que dá uma média de 3 por dia! Há hoje um combate ao doping nesse “esporte”. Alguns podem argumentar dizendo que o doping hoje existe em qualquer modalidade, o que é verdade, mas nessas corridas há um agravante forte porque o atleta humano sabe que pode se machucar ou mesmo morrer utilizando esse recurso proibido, mas o cavalo não.

Outra estatística diz que um cavalo morre a cada 1000 corridas. O cavalo sabe desse risco? Desse "custo"? E são justamente as acusações cada vez maiores sobre o doping em corridas de cavalos que vêm esquentando o debate nos EUA, pois o assunto sempre volta à tona quando um cavalo se acidenta ou quando um cavalo pego positivo no exame retorna sem sucesso ao pelotão ou ainda às vésperas de corridas como essa.

Mas não foi por isso que resolvi escrever esse post. O ambiente de corridas de cavalo é um ambiente masculino por natureza, e a frase que abriu esse post é de uma mulher. Justo ela que capturou a atenção de muita gente alguns anos atrás escrevendo um livro que depois virou um filme de sucesso que concorreu ao Oscar de Melhor Filme.

Foi depois de ver o excelente “Seabiscuit” (Idem, EUA 2003) que conta a história do cavalo de maior sucesso na história do país das corridas de cavalo que saí atrás do livro da Laura Hillenbrand. O livro não é nada menos do que espetacular! Uma das maiores biografias esportivas! Ela amarra a vida de um treinador desacreditado, com a de um dono de cavalos que havia perdido muita coisa (não posso dizer tudo) na Depressão pós-Crise de 1929, com a de um jóquei improvável montando um cavalo que se parece em nada com um cavalo vencedor. E nos anos em que todo um país não tinha no que acreditar, eles viram a história de um cavalo que uniu um país e que chamou mais atenção da imprensa que o próprio presidente Roosevelt.

Se você não viu o filme ainda, veja! Foi depois dele eu passei a ver corridas de cavalo com outros olhos, a ponto de prestar atenção em Barbaro, que não deve ser conhecido dos brasileiros fora das rodas dos jóqueis clubes brasileiros.

Os políticos em tempos de dificuldade como a atual estão sempre tentando unir seu povo. E Barbaro alguns anos atrás e Seabiscuit décadas atrás provaram que esse fator não precisa ser humano. Pode ser um animal. E ainda melhor e mais eficiente se ele for muito, muito rápido!

3 comentário(s):

Zabo disse...

Grande Balu,

Parabéns pelo belo post! Dá gosto ler sobre cavalos e turfe de alguém que se interessa pelo assunto e não é do meio.

Sugiro que veja o novo filme da Disney "Secretariat". Não pela qualidade dele, pois eu esperava muito mais, mas pela história deste super animal. Vale a pena.

Só uma correção: Ruffian foi uma fêmea, talvez a melhor da história, provavelmente não, agora que temos a Zenyatta!

Danilo Balu disse...

@Zabo, que bom que gostou do post! Corrigi o lapso sobre a Ruffian. Assisti ao filme dela algumas semanas atrás! É de arrepiar! Confesso que gostei mto mais do que de Secretariat. Um abraço!

Danilo Balu disse...

Esqueci de dizer que fiz um breve comentário sobre o filme Ruffian numa lista de filmes esportivos baseado em fatos reais.

http://www.baluzao.com/2011/01/filmes-de-esportes-baseados-em-fatos.html

abrax

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