Não dá! Eu estava quieto, no meu canto, aí veio o Rodolfo Araújo provocando! Em um ótimo e em algumas passagens muito engraçado texto ele fala mais uma vez da mania bem brasileira de meter os pés pelas mãos com hábitos e costumes que confirmam e perpetuam nosso atraso. E do recente texto dele há um ponto que já gerou muita discussão minha com meus amigos e até devidos mal entendidos: a licença-maternidade.Eu não tenho nada conta grávidas, acredite! Até me prometi não tocar nesse assunto da licença por um bom tempo. Mas anos atrás estava na aula na faculdade de Nutrição e a disciplina em questão discutia justamente a gravidez, a saúde da criança e da gestante. A professora explicava que hoje é recomendado que o bebê até os 6 meses de idade se alimente apenas e tão somente do leite materno. Nada mais, nada menos. Não demorou para alguém questionar a lei brasileira perguntando se a licença assim não deveria ser de 6 meses e não apenas 4. A professora respondeu que por esse critério ela deveria, sim, ser estendida. Para que entenda melhor o contexto da turma, éramos 40 alunos e eu um dos 2 únicos homens da sala.
Então eu perguntei: e por que não 15 meses de licença para a mulher e mais um punhado de meses para o homem? A professora fez cara de “cuma”. Então eu expliquei: 9 meses de gestação, mais 6 de amamentação. Aliás, por que não dar 18 anos pra que ela cuide dele até a idade adulta? Não acredita que fiz isso? A grita, óbvio, foi geral!
Mas leitor, por que apenas 4 ou 6 se nesse caso mais significa melhor? O dinheiro não está mesmo caindo do céu? Então por que não dar mais?
Bom, não precisa fazer muita força para entender que eu sou contra o atual modelo brasileiro. Mas por quê? Os motivos são muitos, mas eu gosto de comparar nosso modelo com o que se pratica no mundo. Por mundo entenda EUA, Japão, Austrália e Europa. O resto chamaremos de resto. Os EUA não entram na comparação porque é um país 100% industrial e rico que não oferece qualquer sistema de saúde público aos seus cidadãos, o que me parece radical para uma questão que envolve justamente a manutenção da própria sociedade. Pois o que se faz então nos demais países? Bom, talvez com exceção da Itália e de outros países que não encontrei o modelo atual via web, todos eles dão de 4 meses a 2 anos de licença. Então você olhando apenas isso pode se enganar e considerar o modelo brasileiro atrasado com pouca cobertura. Não! Você precisa ler tudo! Nesses países quem paga o salário durante a licença é o ESTADO com seu teto salarial enquanto no Brasil temos algo muito diferente. Aqui quem paga é o EMPREGADOR. Ou seja, o modelo deles se aplicado no Brasil geraria salários BEM MENORES durante um período de afastamento equivalente ou maior. Mas o que desejam os brasileiros? Período de afastamento europeu com salário na integralidade. Isso não existe no mundo real!!! Há uma união estúpida e inexplicável do período máximo com o maior salário possível empurrando a conta ao empregador que não está esperando filho! O funcionário pede algo e empurra a conta!
A argumentação que mais ouço e que acho tonta é o fato do teto salarial do governo brasileiro ser baixo, então a lei compensaria isso. Nada justifica! A função da lei não é essa! A lei serve para assistir, não para segurar.
Para mim fica claro que o ideal seria criar a possibilidade da mulher ter até 6 meses de licença remunerada com o salário do governo CASO ela assim queira, do contrário ela volta antes ao trabalho. Se quiser ficar mais tempo, fica obviamente sem salário, mas com o emprego garantido. E por que eu acho isso? Os motivos não são poucos. O primeiro é que isso, acredite, é melhor para a própria mulher que não vai mais ter o problema de ser preterida por ser mais cara que o funcionário homem que não engravida. A pessoa precisa ser lunática para achar que o empregador não pesa isso na hora da contratação. Empresa não é ONG, tem que dar lucro. Costumo dizer que a mulher que exige licença-maternidade longa não pode JAMAIS reclamar de ser preterida em uma contratação.
A segunda argumentação é que aqui no Brasil temos a mania idiota de brincar com dinheiro alheio. Há problemas conjunturais no país e achamos que o empregador tem que pagar por isso. Como não há almoço grátis, essa conta é repassada pra frente. E como o empresário quer reduzir o preço, ele contrata mais homens para não ter que pagar mais. Então temos preços mais altos, mais mulher desempregada e gente pobre pagando a gravidez de gente rica! E reclamamos! Brasileiro é mesmo um povo estranho...
E por fim entra a questão que o governo deve agir onde o mercado não se interessa por agir. A licença-maternidade poderia ser um excelente método de distribuição ou compensação de renda porque as pessoas com baixa remuneração são cobertas integralmente pelo benefício sem comprometer o salário ou o crescimento de seu herdeiro. Enquanto isso, aquela gerente de multinacional não tem sua gravidez custeada pela própria empregada, que é o que atualmente acontece. Ou seja, tem salário de 5 dígitos e quer engravidar? Se programe financeiramente do mesmo modo que você se programaria para tudo que tenha alto custo na vida! O assalariado de 3 dígitos não deveria pagar por isso!
Vou citar um caso pessoal. Como ex-sócio de uma empresa falo abertamente que funcionárias mulheres eram preteridas DE CARA por serem mais custosas. Se uma microempresa faz isso, o que te leva achar que em grandes o mesmo não ocorre?
Hoje a lei do jeito que está entra no rol das idiotices que nossa Constituição porca de 1988 proporcionou pelo fato de papel aceitar qualquer coisa. Temos 2 mundos, o da teoria no papel e aquele que quer a realidade do mundo imaginário. Enquanto isso, num jogo dos absurdos nossas empregadas brasileiras vão custeando a gravidez das patroas e as brasileiras continuam sem entender o porquê desse mundo cruel contratá-las menos do que poderia. E tem gente que ainda acha adequado e razoável...

13 comentário(s):
Embora concorde com a idéia central do texto, acho (é achismo mesmo, cerece confirmação) que o empregador não arca com o salário integral durante a licença. De qualquer forma, ele acaba tendo muitos custos indiretos, como treinamento do substituto e etc.
Muito bom, Baluzão!
Correto mais uma vez.
Abraço.
Concordo...
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O lucro é importante para uma empresa, porém, o ser humano deve estar acima de tudo. O Seu Balu não deve ter mãe, quando nasceu o feto desceu pelo ralo e foi criada a placenta para ter uma opinião imbecíl como esta.
Sr Anônimo, vc está sendo injusto… veja que perguntei à professora por que não dar licença por 18 anos! Por que não? Se vc disser que 6 meses está bom, vou chamá-lo de assassino! Se a qtide de meses e não a lógica faz a régua da medida do caráter de uma pessoa, poderíamos dizer que sou mais humanitário que qq pessoa no mundo, Assass.... digo, Anônimo.
Até mais!
olá Balu,
Eu estou grávida, de 7 meses, e acabo de confirmar com meu empregador (empresa privada) que terei os 4 meses de licença. Faltou vc comentar que essa nova lei só entra em vigor em 2010 para as privadas, e que o salário será integral pago pelo governo, nesses 2 meses a mais, assim como vc sugeriu, ou seja, poderá ser descontado integralmente do Imposto de renda.
Enfim, eu como futura mãe ainda não ganhei nada com isso, a não ser a tristeza de ter que amamentar somente por 4 meses... depois deixar um leite artificial ou coletado, não sei... e lembrando que comidinha mesmo, só começa com 6 meses. Eliane
Querido, a sua ignorância lhe vedou o conhecimento do seguinte fato de que quem paga a licença é a empresa mas depois ela é ressarcida quando declara o imposto de renda. Ou seja, não há prejuízo para a empresa, e mesmo que haja é insignificante em relação ao seu lucro mensal. Quanto ao seu estúpido comentário sobre "brincar com o dinheiro alheio", concordo que este é um sério problema, como a senhora sua mãe que também "brincou" demais com o pênis alheio e trouxe para o mundo essa desgraça, e hoje somos obrigados a nos deparar com pensamentos extremamente imbecis, que nos leva além da indignação e nos faz comparar o seu humilde cérebro a um tolete de cocô no vaso.
A todos que leram este artigo, antes de formar qualquer opinião procurem todoas as fontes, busquem a verdade; e antes de fazer comentários ofensivos, orientem, apontar problemas não os resolve, nem ajuda quem procura informação.
Deus abençoe a todos em nome de Jesus!
Você tem filho?
Se sim, diga se você está atualmente com a mãe da criança.
Grato.
Balu, fico bastante triste com este seu post.
Vc relata diversos argumentos financeiros e legislativos sobre a licensa maternidade e não discute em nenhum momento o lado humano e o que é melhor para o desenvolvimento do bebê, vulgo futuro cidadão.
Além da amamentação e dos benefícios físicos existem diversos benefícios psicológicos para o bebê que se evidenciam com uma licensa maternidade de 6 meses comparada a uma de 4. Países evoluídos de alto nível desenvolvimento humano como os do norte europeu perceberam isto e proporcionam licensa maternidade (e/ou paternidade) que variam de 5 a 12 meses.
Nestes países, para funcionárias públicas, o benefício concedido normalmente é de salário inteiro durante toda a licensa, pago pelo governo. E funcionárias públicas muitas vezes têm salários equivalentes aos de gerentes de multinacional.
Para funcionárias privadas o governo contribui com um mínimo e a empresa normalmente completa o salário. Se a mãe resolver extender sua licensa além do estabelecido na lei, aí sim ela passa a receber proporcionalmente menos.
Desculpe minha burrice mas não entendi o racional que levou a conclusão de que as grávidas pobres pagam a licensa maternidade das grávidas ricas? Numa sociedade capitalista correta, o imposto pago pela mãe e pelo pai ao longo de suas vidas é que pagará esta licensa maternidade.
E fiquei realmente sem entender qual é s sua solução para uma mulher que, como eu, é gerente de multinacional. Devemos nós mulheres nos programar para ficar 6 meses sem salário? E os homens, pais, como fariam para contribuir? Não deveriam tb ficar sem receber salário por 3 ou 6 meses nesta sua sugestão?
Eu já tive o azar de trabalhar em empresas machistas que pensavam como vc pensava na sua empresa, e contratavam apenas homens visando economizar custos de curto prazo.
E tb já tive a sorte de trabalhar em empresas que pensam muito além. Que entendem que a mulher trás habilidades, pensamentos e talentos diferentes e complementares aos dos homens e muito necessários para o sucesso de longo prazo da empresa.
A mulher trabalha e se dedica muitas vezes mais que os homens no tempo em que está trabalhando, provavelmente porque ainda está tentando se provar. Eu por exemplo sei que o que trago para minha empresa em 6 meses é muito mais que a maioria dos homens meus colegas entrega em 12 meses.
Adri
Fala Dri! Vou tentar ser sucinto nas suas questões!
“Vc relata diversos argumentos financeiros e legislativos (...) e não discute em nenhum momento o lado humano e o que é melhor para o desenvolvimento do bebê...”
Sim, acredito que o que deve nortear políticas públicas que envolvam investimentos de 3os devam partir do prisma econômico, do contrário vamos depender SEMPRE da visão do lado humano de quem investe. Já volto nesse pto.
“Países evoluídos de alto nível desenvolvimento humano (...) proporcionam licença (...) que variam de 5 a 12 meses. (Lá) o benefício concedido normalmente é de salário inteiro (...) pago pelo governo. E funcionárias públicas muitas vezes têm salários equivalentes aos de gerentes de multinacional.”
Concordo 100%!! Mas sabe qual o teto de salário governamental brasileiro hj? Está na casa de R$1500. Ou seja, o (modelo) brasileiro quer política européia (salário pago pelo governo) com particularidade tupiniquim (zero de perda financeira pela equiparação de salário do mercado privado)
“não entendi o racional que levou a conclusão de que as grávidas pobres pagam a licença maternidade das grávidas ricas?”
O dinheiro sai todo de um mesmo bolo. O imposto que a sua empregada paga entra no caixa que vai pagar o excedente que o governo não cobrirá do salário dos ricos. O contrário não é verdadeiro e mesmo que fosse, aí sim, é política de distribuição de renda.
“Numa sociedade capitalista correta, o imposto pago pela mãe e pelo pai ao longo de suas vidas é que pagará esta licença maternidade.”
Infelizmente este está longe de ser o modelo brasileiro. Essa é uma das minhas críticas.
“qual é a sua solução para uma mulher que, como eu, é gerente de multinacional. Devemos nós mulheres nos programar para ficar 6 meses sem salário? E os homens, pais, como fariam para contribuir? Não deveriam tb ficar sem receber salário por 3 ou 6 meses nesta sua sugestão?”
O que eu acho justo é que quem recebe mais que o teto atual (~R$1500) recebe durante o período de afastamento opcional esse salário de R$1500. Os homens se entram em licença arcam com a mesma perda salarial. Quem abrir mão dos 6 meses de direito, volta ao trabalho e recebe salário normal. Não acho que NINGUÉM deva ficar com zero de salário. Esse pro exigiria parágrafos, mas isso é uma política social tb de distribuição de renda. A parte mais pobre da sociedade será financiada pelo estado recebendo salário integral (mesmo teto de R$1500) cuidando dos filhos (“lado humano, desenvolvimento do bebê, futuro cidadão...”) enqto os mais ricos bancam para que o estado justamente cuide dessas pessoas tendo a opção de retornar ao trabalho antes caso ache gde a perda financeira.
(continua)
(continuação)
“Eu já tive o azar de trabalhar em empresas machistas que pensavam como vc pensava na sua empresa, e contratavam apenas homens visando economizar custos de curto prazo. E tb já tive a sorte de trabalhar em empresas que pensam muito além. Que entendem que a mulher trás habilidades, pensamentos e talentos diferentes e complementares aos dos homens e muito necessários para o sucesso de longo prazo da empresa. “
Não é machismo, é custo. Na empresa tb tínhamos mulheres porque sabemos eu elas são importantes, mas havia um inegável desconforto e preferência por homens porque eles custam menos. Dri, não é machismo, é custo. Os números mostram que as mulheres pagam involuntariamente por essa política. Não se resolverá isso com boa vontade, mas incentivos. Sinceramente? Nunca perdemos 1’ de sono por preterir mulher por questões de custos.
“A mulher trabalha e se dedica muitas vezes mais que os homens no tempo em que está trabalhando, provavelmente porque ainda está tentando se provar.”
Isso, sim, é feminismo.
“Eu por exemplo sei que o que trago para minha empresa em 6 meses é muito mais que a maioria dos homens meus colegas entrega em 12 meses.”
Nunca tive a menor dúvida disso por conhecê-la e por ver que vc é boa no que faz, Mas isto não tem a ver com sexo. Vc é melhor (e tb pior) que homens mulheres.
Por fim, como falei com vc naquela vez, acho que mulher e homem têm ambos direito à licença, que seja no valor do teto do estado e que precisamos TODOS esquecermos DE VEZ essa história de contar com visão, boa ação, cidadania e qq outra coisa subjetiva, do contrário, extingamos semáforos, polícia, leis e que se baseie TUDO no princípio do que seria o certo, MS a asociedade baseia-se SEMPRE na base de incentivos, não apenas com consciência.
Que discordamos por vezes desse jeito, sempre de forma mto civilizada.
Bjos
Oi Balu.
Não concordo com alguns pontos, mas sou vergonhosamente muito pouco politizada (ou interessada em política) para discorrer sobre todos eles.
Sobre o valor da mulher no mercado de trabalho, há um artigo interessante na VOCÊ SA de dezembro mostrando o estrondoso maior resultado de empresas que empregam número mais equilibrado de mulheres. Há benefícios financeiros e operacionais ainda hoje cegamente ignorados por homens, que mostram que a diversidade de sexo trás resultados financeiros que superam em muito os maiores custos marginais de contratar mulheres.
Concordo sim sobre o seu ponto de nos basearmos em leis e incentivos, ao invés da consciência individual, já que cada um tem sua própria idéia de consciência.
Entendii alguns de seus pontos melhor e estou um pouco menos triste com seu post.
Beijos!
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