quarta-feira, 11 de março de 2009

Dias Gloriosos


Você me acha pessimista? Pois saiba, utilizando Luiz Felipe Pondé que:

"Não escrevo para tornar a vida do meu leitor melhor. Escrevo e leio para não me sentir só."

Eu sou um pessimista de carteirinha, eu sei. Chego a ficar nervoso com otimismo alheio. Se você me pergunta o motivo, vou dizer que é porque sou muito racional, gosto de basear opiniões e não torcer para o que vai acontecer. Gosto de fazer o papel de advogado do diabo, saio (sem nenhum prazer especial!) mostrando o motivo das coisas irem dar errado porque não acho nunca o mundo tão fácil como os otimistas gostam. Aliás, costumo nos separar em otimistas e realistas, nem existe pra mim o pessimismo.

Mas e sobre o passado? Faça o seguinte, saia perguntando aos mais velhos sobre a vida no passado. O saudosismo vai aflorar como erva-daninha no quintal depois da chuva. “Ah os velhos tempos...” 30 anos atrás (ou 40 ou 50, tanto faz!) era mais seguro, as pessoas eram mais educadas e blablabla... parece a letra traduzida daquela música filtro solar com o indivíduo dizendo que alguns se enganam lembrando que “quando era jovem, os preços eram razoáveis, os políticos eram decentes, e as crianças respeitavam os mais velhos”.

A escola pública era boa? Isso não é verdade como bem atesta o grande Cláudio de Moura e Castro. Apesar de haver esse mito de que antes ela era boa, ela não só era medíocre e ruim como hoje, como era para poucos. E muitos dos poucos iam descalços. Ou seja, era qualitativamente tão ruim quanto hoje. No Brasil democratizamos o direito à escola ruim, o que não deixa de ser menos pior.

A lista do que antigamente era supostamente melhor ainda vai longe. Pois lia um artigo dia desses que citava alguns números que nunca é demais lembrar: a maioria de nós trabalha menos (em anos) do que nossos pais trabalharam. Nós ganhamos pela idade em média o dobro do que eles ganharam em valores corrigidos. Seria algo como começar o final de semana na tarde de 4a. Mas não é só isso! Temos também mais tempo para o lazer. Segundo o economista Mark Aguiar e Erik Hurst, o tempo de lazer médio da mulher aumentou 4h por semana se comparado a 1965. Muitos homens 100 anos atrás começavam a trabalhar aos 10 ou 12 e só paravam quando a morte chegava aos 50 anos. Agora é comum passarmos menos da metade de nossa vida trabalhando e passamos a outra metade estudando, viajando e aposentados chegando à idade média de 70 anos.

O grande Maurício de Souza disse em entrevista à revista Veja que “essa melancolia que se vê em muitos adultos não faz sentido, nada estaria sendo perdido. A questão é que tudo ficou mais intenso, condensado” disse ele quando comparava a infância de hoje com antigamente.

Pois é um fato que as notícias ruins dão mais manchete, mas nem por isso podemos concluir que o mundo hoje está pior. Jamais houve tanta liberdade e o crescimento das democracias foi extraordinário. Reduziram-se as guerras e as mortes violentas. Isso não é opinião, é fato. Não é gosto, são números. A razão, a ciência e a tecnologia lançaram luzes onde havia trevas pela ignorância. Acabou-se a fome causada por calamidades naturais. Hoje ela persiste é pela incompetência e corrupção das ditaduras africanas ou do servilismo populista.

Hoje qualquer pobre possui mais comodidade pela tecnologia que os milionários do começo do século. O acesso a serviços médicos é precário, mas antes não havia nada. E o acesso a água encanada, eletricidade, TV, telefone, geladeira e dezenas de outros confortos? Quem possuía isso antes? Qual era seu custo?

Os saudosistas de plantão que fiquem com seus resmungos, que não saia disso, pois não há fatos que lhes dê razão. Quer dizer então que considero o mundo ideal ou perfeito? Releia tudo e verá que nunca disse isso. Mas quando saímos do campo do mensurável para o subjetivo nos depararemos com outras comparações não tão fáceis. Os atletas de antes eram também melhores? Ou como tudo eles também melhoraram?

Tenho um grande amigo, o Vítor Ohtsuki, que disse certa vez que a nossa geração é privilegiada porque está podendo assistir alguns dos maiores nomes do esporte de todos os tempos. Os registros de Fangio são pequenos, Garrincha apenas em preto e branco. A cada 4 anos vemos matérias e especiais sobre os JOs com atletas que nem vivos estão mais. Outros há tempos estão aposentados e sobram poucos momentos de boa qualidade para vermos. Pois hoje estamos acompanhando praticamente ao vivo com TV à cabo e Internet o desenrolar da carreira de alguns nomes que com certeza serão considerados futuramente os maiores expoentes em suas atividades: Federer, Tiger Woods, Rafael Nadal, Schumacher, Ronaldo, Zidane, Kobe Briant, Michael Phelps... a lista é interminável. Entre outros que começaram “antes da internet” temos Maradona, Senna, Jordan, Sampras, Joe Montana... Temos outra lista interminável. Quem negaria a esses um lugar em uma seletíssima lista de melhores de todos os tempos? Improvável.

Alguns irão dizer que os antigos atletas eram mais “raçudos” e tinham mais amor à camisa. Isso é uma bobagem da mais pura. Eles viviam em outra época, em outra realidade. É injusto com os atuais dizer que são piores por terem benesses que não existiam o que é muito diferente de ser negadas aos outros. Sob qualquer aspecto não se pode tirar esses nomes e muitos muitos outros seu espaço na galeria de maiores de todos os tempos. E se você ainda tem algum parente mais velho que se orgulha de dizer que viu Pelé jogar ou que ouviu pelo rádio algum grande feito esportivo, pode estar mais do que tranquilo que a história não parou. Estamos dia-a-dia vendo o desenrolar de novos e grandes nomes e presenciando a história acontecer diante de nossos olhos com a vantagem do avanço da tecnologia da comunicação. Assim não deixa de ser um alento nesse nosso tempo ver as coisas melhores e outras tantas boas surgindo.

p.s.: o nome aportuguesado desse artigo eu “roubei” de meu amigo Ronalt que em seu blog escreveu um tempinho atrás um texto mais ou menos nessa linha. A foto eu também “roubei” dele que por sua vez “roubou” do blog de um outro amigo nosso, o Bola. A saber, se trata da Seleção Brasileira de Basquete campeã Mundial de basquete 50 anos atrás.

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