
para Robert Balboa Jr,
É filho... às vezes nossa vida toma um rumo bem diferente sem a gente nem saber e entender os motivos. Quando tivemos aquela discussão em frente ao Adrian's, eu falei tudo aquilo pra você porque achei (e acho) que você ainda não faz ideia de como eu vi aquele meu menino crescer tão mudado.
Lembro bem quando você era apenas um moleque deslumbrado com o nosso novo padrão de vida e me fazendo até entrar pela primeira vez no Museu de Arte da Filadélfia onde minha estátua de bronze está lá em frente faz tanto tempo. Lembro também de você ter ficado até tarde da noite para ver minha luta contra o Ivan Drago em Moscou mais de 20 anos atrás. Foi por você e pela sua mãe que eu enfrentei tudo aquilo. Foi por isso que fiz questão de lembrar de você naquele discurso que até veio a ficar famoso.
Mas você também sabe que não foi só por vocês 2. Dizem que os amigos vêm e vão e que isso é mais do que natural. Mas alguns são mais especiais. Esses vêm e vão em definitivo pelo capricho do destino com aquela que é a única certeza que temos ao nascer. Não me lembro jamais de ter conversado com você sobre isso, mas mesmo com todo o meu talento para lutar (do contrário eu seria cantor ou dançarino), não sei se estaríamos aqui hoje sem ele, filho, o Apollo Creed. No boxe, acho que apenas o Mickey Goldmill foi tão importante para mim.
Depois de uma vitória sobre o Spider Rico - sim! Ele mesmo, filho! Nosso ajudante lá no Adrian's – eu tive uma discussão feia com o Mickey, sabe? Ele não acreditava mais em mim. Até meu armário da academia ele tirou. Aí apareceu o Apollo na minha vida. Depois do Mac Lee Geen quebrar a mão em um treino o Apollo decidiu que daria a oportunidade para um desconhecido de enfrentar o Apollo, o campeão mundial dos pesos-pesados. O Apollo conversou com o Mickey e acharam que seria mais do que emblemático uma luta dessas na terra das oportunidades, os EUA, e em uma região tão assolada pelo pessimismo como a Filadélfia.
Se quiser você pode conversar com o Tony “Duke” Evers que o conheceu muitíssimo bem porque foi o treinador dele até aquele fatídico 31 de Agosto de 1985 em Las Vegas. O Apollo era falastrão, confiante e um pouco convencido. Mas isso faz parte do boxe! O James “Clubber” Lang era assim também. Eu já era mais caladão.
Então depois de muito treinamento duro, filho, fui naquele 04 de Julho de 1976 para aquela luta que era a minha chance. Eu que me orgulhava de nunca ter quebrado o nariz lutando e perdi essa invencibilidade foi logo de cara com ele mesmo, filho. Mas era isso ou nada. Eu, que passei a vida toda ouvindo insultos do meu pai por ser “pouco inteligente”, pra dizer o mínimo, fui fazer o que ele mesmo uma vez me disse:
"You weren't born much of a brain so, you better start using your body"
Larguei a escola e abracei minha chance! Primeiro o boxe e depois essa que o Apollo estava me dando. Até a luta contra o Rico tinham sido 20 derrotas em 64 lutas. Uma derrota a mais ou uma a menos não faria a menor diferença. Mas uma vitória, sim! E foi assim que lutando em casa, no Filadélfia Spectrum, levei o Apollo pela 1a vez até o 15o e decisivo assalto e foi assim também que o derrubei pela 1a vez na carreira dele quando ele achava que eu não passaria de 1 ou 2 assaltos. E pensar que nem as cores do meu desenho nos pôsteres estavam corretos...

Perdi? Sim, perdi na decisão dos árbitros em decisão apertada em uma das lutas mais duras da minha vida. Mas eu estava contente. Não pensava em muito mais coisas. Tanto é que após o som do gongo ele ainda me disse “Ain't gonna be no rematch!" no que respondi na hora "Don't want one"! Lembro perfeitamente...
Mas já disse pra você aqui na carta, as coisas tomam rumos diferentes. Depois daquela luta o Apollo não gostou muito do que saiu na imprensa dizendo que eu havia ganho moralmente a luta e que ele não havia sido convincente. Estavam incertos se os árbitros agiram bem. Então houve a revanche naquele Thanksgiving de 1976 após meu casamento com sua mãe, ainda como Adrian Pennino.
Nós precisávamos do dinheiro, filho, não podia recusar dando as costas por puro orgulho. A luta mais uma vez foi terrível, filho. O Apollo é assustadoramente forte! O Lou Fillipo no 15o assalto teve que fazer a contagem naquela dupla queda que acho que é ainda inédita no boxe.
Lembra então, filho, que te disse que “it ain't about how hard ya hit. It's about how hard you can get it and keep moving forward. How much you can take and keep moving forward”. Foi isso que me fez levantar na 1a luta, na 2a e me fez levantar até a última.
Mas às vezes é difícil nos levantarmos sozinho... e acho que uma das quedas mais fortes que tive fora do ringue foi quando perdi para o James "Clubber" Lang no 2o assalto da 1a luta. Mas isso foi o de menos naquela noite. Comigo caiu outra pessoa que não se levantou mais: Mickey Goldmill. Você já ouviu muito dele, filho. Ele que temia que eu enfrentasse “killers” e tentou arranjar lutas apenas contra “bons lutadores” se foi naquela noite e quem me ajudou a me reerguer foi justamente o Apollo. Ele e o Tony "Duke" Evers me convenceram da revanche, me motivaram e me treinaram juntos, sabe? E na revanche em que ganhei por nocaute meu título de volta, estava eu lá usando o calção vermelho, branco e azul do Apollo.
Boxeador tem que ser forte, filho. Tal como na vida. Alguns anos depois dessa luta aconteceu algo que já me custou muita reflexão. O Apollo depois de 5 anos longe dos ringues participou de uma exibição contra o campeão mundial amador e medalhista de ouro olímpico Ivan Drago. Drago foi provavelmente o lutador mais completo que já vi. “Ele não era humano. Era feito de aço”!

Eu não quero me eximir de nada, sabe? Sei como é dentro do ringue... não podia aceitar que algum treinador meu jogasse a toalha. E foi isso o que Apollo me pediu antes de cair. Sua mulher, o Tony... todos pediam o fim da luta. E a toalha caiu tarde. Muito tarde. Nunca falamos a respeito disso até hoje. Não sei se pessoas têm medo de me culpar pelo que ocorreu. Mas eu nunca sossegaria se não tivesse a minha revanche. Era por ele! Pelo Apollo! Foi por ele. E foi por isso que fui cedo até a antiga-URSS para lutar contra o Drago! Toda minha preparação foi lá.
Filho, não preciso nem dizer o quanto sua mãe significa pra gente. A morte dela em 2002 foi um golpe duro. Minhas idas diárias ao túmulo dela e aos lugares importantes para nós dois é minha homenagem à ela. Não te peço isso. Só peço que nos sinais de dificuldade, como quando uma comissão de boxe tenta te tirar o direito de lutar, como fizeram comigo em 2005 ou quando você caia cansado, que você se levante!
Enquanto vou envelhecendo, filho, já foram 3 as mortes que quase me venceram por nocaute. Às vezes sozinho será quase impossível se levantar. Mas que você não desista. Esses amigos, como o Apollo, estarão por perto e verão que você está tentando fazer sua parte. E desses a gente não pode esquecer nunca.
Do seu pai,
Robert "Rocky" Balboa.

1 comentário(s):
Nossa! Não sei por onde começar...
Deixe-me pensar... Rocky Balboa! Apenas um comentário: Balu, você pelo menos 2 anos atrasado!!!
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