quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Comprando e Vendendo Indulgências

Ao ler um artigo dia desses me senti mais aliviado. Estava eu procurando um voo pela EasyJet saindo de Belfast (2h de ônibus de Dublin) quando ao prosseguir na compra aparece a um custo relativamente baixo a opção “Help the Environment: Reduce the impact of the carbon emissions from your flights on the environment” (*ajude o meio-ambiente: reduza o impacto das emissões de carbono de seu voo no meio-ambiente). Isso me pareceu picaretagem da pura, ainda mais vindo de uma empresa aérea de baixo custo que tenta ganhar nos mais improváveis pontos.

Quer saber se paguei? Não comprei o voo, mas não pagaria. Prefiro a opção "queimar no inferno" que alguns devem estar pensando. Mas será que funciona? É justo?

Bom, que funciona, teoricamente até funciona. Mas quando vi a opção na compra não foi difícil lembrar de um capítulo do ótimo O Economista Clandestino” (Tim Harford). Nele, o autor fala sobre um caso inglês quando em nome de ajudar os produtores de café sul-americanos (colombianos, se não me engano) uma cadeia do tipo Starbucks começou a vender um café “socialmente responsável”. Para isso eles acresciam o valor do produto em alguns centavos. Não me lembro, mas era algo como uns 40 centavos. Um chato (que poderia muito bem ter sido eu) de um jornal local resolveu fazer os cálculos e descobriu que o custo real que deveria ser acrescido para esse café não poderia ser maior do que... 1 centavo!! UM mísero centavo!! O que a cadeia fez após a denúncia? Teve que aceitar o fato de que mais do que “socialmente responsáveis” eles estavam sendo socialmente responsáveis com o próprio bolso.

Se uma rede de lanchonete e uma companhia aérea disfarçam um comportamento socialmente responsável para vender mais, o que mais podemos tirar disso? Bom, se desde o início isso ficasse claro ao consumidor, não vejo erro moral algum. Mas o primeiro ponto é que houve uma tentativa questionável de ganhar dinheiro. Mas o que podemos ver além disso?

Faz um tempo li um artigo do ótimo blog do Rodolfo Araújo que tocou em um ponto interessante quando falava sobre filhos e o que deixamos aos nossos. Ele defende que não deixaria nada porque acha que a educação seria a melhor herança. Preocupando-se apenas com uma herança material estaríamos assim fugindo ou compensando nosso papel de pais. É mais ou menos esse o ponto defendido por um outro artigo muito bom quando o autor defende que agora passamos de bons cidadãos para bons consumidores. Pagando por um produto pagamos pelos nossos pecados de não tratar bem nosso planeta. É o correto? Ou o correto seria fazermos o que é ecologicamente correto sem precisar ser chato?

Parece, sim, que em nosso mundo atual não parecemos contentes ou satisfeitos com o que fazemos e buscamos a cada dia compensar o nosso desleixo. Se não doamos nosso esforço voluntário, pagamos para que alguém o faça. Se poluímos, pagamos alguém que desfaça a sujeira. Onde o dinheiro pode comprar, vamos substituindo nossas obrigações com o próximo, seja ele nosso filho, o meio-ambiente ou um agricultor colombiano. E para isso hoje contamos com várias empresas que, desde que paguemos, oferecem a possibilidade de trocarmos nosso dinheiro para nos fazer além de um bom consumidor, um cidadão melhor.

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