quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

4a feira a 4 mãos - convidado: Rodrigo Pontes, o Soneca.


por Rodrigo Pontes, o Soneca

ONG é...

Acho que não há muito suspense sobre o tema de meu texto aqui no Blog do Balu. Mesmo correndo o risco de ser eliminado e censurado, de acordo com a 4ª diretriz secreta, vou falar sobre o mundo das ONGs. Aos que não me conhecem, venho trabalhado em organizações sociais sem fins lucrativos nos últimos 4 anos. Tenho essa escolha profissional já definida e clara para mim e acredito que o tipo de trabalho que desenvolvo é o melhor caminho para diminuir os problemas sociais no mundo. Assim, fico tranqüilo em dizer que escolhi como profissão, mudar o mundo.

Falando assim geralmente recebo duas reações; ou sou um santo idealista ou ingênuo que se ilude. Claro, não sou uma coisa nem outra, minha escolha profissional é tão normal quanto qualquer outra, os sacrifícios e benefícios que tenho com essa escolha existem como em qualquer outra e o dia em que o terceiro setor for apenas uma escolha profissional e não um lugar para santos ou ingênuos será o dia em que esse setor alcançará de fato o alcance e impacto social que almeja.

Além dessas, aparentemente positivas, há muitas outras generalizações e críticas não embasadas sobre as ONGs, geralmente negativas, e meu objetivo nesse texto é ir colocando minha opinião sobre cada uma. Muitas dessas opiniões vêm junto com a frase “Eu não acredito em ONG”. Muitas vezes tenho conversas, discussões, debates onde costumo defender o que eu faço e porque eu faço, mas quando ouço essa frase, simplesmente paro de debater. Tenho por principio não me dar ao trabalho de debater com alguém que fala bobagens e dizer que não acredita em ONGs é tão tolo quanto dizer “não acredito em empresas”. Porque ONG não é tudo a mesma coisa, muito pelo contrário, tem uma diversidade interna muito maior que qualquer outro setor. Há organizações que defendem o aborto, há outras que são contra ele. Há as que querem influenciar políticas públicas, há as que querem substituir o estado. Aliás, essa é uma crítica que se faz às ONGs, que substituem o estado e assim, de alguma forma, vão fazer com que o Estado se sinta dispensado de cumprir seu papel de assistência social.

Primero, vou considerar as que de fato substituem o Estado. Se há pessoas que têm como causa, como objetivo de vida, cuidar de idosos, de crianças de rua em qualquer tipo de assistência social que seria papel do estado, porque não fazê-lo e, para fazê-lo melhor, criar uma organização para tal? Deixar de fazer e reclamar que o Estado não faz, para mim, é puro comodismo. Nesse mérito há outra crítica que faz mais sentido, de que uma ONG por maior que seja, nunca irá causar o impacto que o Estado causaria se fizesse bem o que deveria fazer. Isso é verdade, mas quem disse que não há organizações que têm uma preocupação séria em mudar as políticas públicas? E em educar politicamente a população? E em acompanhar o trabalho dos políticos? Assim há muitas que não trabalham para substituir o Estado, mas sim para fazê-lo funcionar melhor. Assim como as que querem fazer com que as empresas cumpram melhor seu papelo social, as que querem que os indivíduos cumpram melhor seu papel social e mais uma infinidade de maneiras de trabalhar.

O problema de discordar da maneira de trabalhar de uma organização só deveria te incomodar se ela usa dinheiro público. E mesmo assim, a forma de cobrança deve ser com o Estado no uso dos seus recursos. Bom, aí chegamos ao tema: é errado uma ONG ser financiada por dinheiro publico? Não. Primeiro vem o argumento superficial de que se é “não-governamental” não deveria receber dinheiro publico. O conceito de não-governamental vem do fato de que é uma organização que tem interesse público, fins sociais, mas não é um órgão do governo, é independente. Assim, se uma organização recebe dinheiro do governo, mas mantém sua autonomia e apartidarismo, mantendo sua liberdade de inclusive ser contra as políticas públicas do Estado, é sim não-governamental. Do lado do Estado acho, inclusive, muito inteligente financiar ONGs para fazer o trabalho de assistência social. O que faz mais sentido, dar a gestão de uma creche para burocratas concursados, sem necessariamente interesse específico em cuidar de crianças e com a conhecida rigidez de gestão; ou dar esse controle a uma organização de pessoas apaixonadas pela causa, que se preocupam em serem eficientes e fazer um trabalho de qualidade? Claro que isso está pressupondo honestidade nos processos licitatórios, mas se a questão é corrupção, a discussão é exatamente a mesma com licitações de empresas e não é um tema particular às ONGs. Porém devo dizer que acho estrategicamente arriscado uma organização basear seu financiamento no dinheiro do Estado devido tanto ao risco de perda de credibilidade, quanto ao risco de perder, do dia pra noite, todo o seu financiamento, pois fica a mercê das nuances políticas e partidárias.

Agora, voltando às generalizações citadas no começo do texto, a imagem de que as ONGs são lugares lindos de pessoas melhores, maravilhosas e santas é igualmente generalista e errônea. Acredito apenas que é maior a probabilidade de que uma pessoa do terceiro setor seja mais solidária e preocupada com o bem-estar da sociedade do que a média. Isso porque trabalhar no terceiro setor significa, em geral, menores perspectivas de salário e de ascensão profissional, então se alguém não tem como causa pessoal a solidariedade, seja de que forma ela se manifeste, ela simplesmente não vai para o terceiro setor. Mas isso não quer dizer que alguém que tenha essa causa, obrigatoriamente vá para o terceiro setor. E mais importante ainda, não significa que quem está em uma ONG necessariamente causará um impacto social positivo maior na sociedade.

Assim, algo que espero de todos os que tenham me lido nesse espaço cedido pelo meu amigo Balu, inclusive o próprio, é que não mais utilizem frases começando com “ONG é... “, seja qual for o complemento. ONG não é nada, cada organização é uma coisa. Se tem uma crítica a uma organização, faça a crítica a uma organização. E saiba que provavelmente há outra que trabalha exatamente da maneira contrária. Assim como reconhecer o bom trabalho de uma ONG é reconhecer o trabalho de uma ONG. Só.

E o objetivo desse texto é de que cada um crie um senso crítico e procure embasamento ao analisar o trabalho de organizações sociais. Porque os impactos sociais, negativos e positivos, de todos os setores devem ser de interesse de todos. E não porque me preocupo com a “imagem que as ONGs têm”, questão muito discutida no terceiro setor, especialmente com a tal “CPI das ONGs”. Que façam CPI, que critiquem, que tenham a fama que for. Meu trabalho não é um compromisso com as ONGs, com o Terceiro Setor e não tenho nenhuma forma de corporativismo. Meu compromisso, por mais piegas que soe, é tornar o mundo melhor. E as dificuldades nisso já são tão grandes, que uma questão de imagem não é significante, nem pro bem nem pro mal.

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