por Ronalt
ÍDOLOS, EGOS, CONQUISTAS E MEMÓRIAS
Durante os Jogos Olímpicos de Pequim Diego Maradona era presença garantida nos jogos de equipes argentinas. Como a Argentina só conseguia competir a sério em poucas modalidades (basquete masculino, futebol masculino e hóquei feminino, entre mais algumas poucas), era fácil localizá-lo. Obviamente, não perdi meu tempo assistindo a jogos de hóquei, mas tanto nos jogos de basquete como na fatídica semifinal do futebol masculino, o furor que a presença dele causava, tanto nos torcedores como nos próprios atletas, era impressionante. Sabemos que ele é considerado um deus por seus compatriotas, mas eu nunca havia presenciado o nível da reação que ele provoca - é algo mais do que especial.
Dois meses depois, Maradona foi anunciado como o novo técnico da seleção argentina de futebol. Minha primeira reação foi: “Como assim? Por quê?”. E eu não estava pensando do ponto de vista técnico, ou seja, colocaram um cara sem praticamente nenhuma experiência na função no “topo da hierarquia” da mesma função – já temos o exemplo do Dunga na seleção brasileira. O meu ponto é: o que leva um cara que é o maior ídolo de seu país a assumir um posto onde parte desse respeito que ele adquiriu possa ser colocado em prova e até questionado? Sabemos da pressão que o cargo envolve – lá não é muito diferente que aqui - e como as coisas vão ser quando os eventuais e possíveis maus resultados começarem a aparecer? Vão chamá-lo de burro? Haverá coro “fora Diego”? Imagino que não. Então vão deixá-lo no cargo só pelo tal respeito citado, mesmo que isso leve a um fiasco maior? Acho que a resposta mais provável é que ele só vai sair de lá quando quiser, o que vai depender da própria capacidade de auto-análise e humildade para perceber que está atrapalhando (a não ser que eu queime a língua e ele se transforme num sucesso como técnico).
Voltando ao ponto: o que leva um ídolo ou alguém que chegou no topo a tentar algo mais, que pode apagar parte de tudo o que foi conquistado anteriormente? Guardadas as devidas (e imensas) proporções, o próprio Dunga passou a ser extremamente respeitado pelo simples fato de ter sido “o Capitão do Tetra”. E agora está sendo execrado pela torcida. É verdade que, a longo prazo, as grandes conquistas provavelmente vão acabar prevalecendo, mas de novo, por que passar por isso?
Não sou psicólogo, mas me parece que há uma necessidade de poder que, ao encontrar um ego mais inflado, faz com que a situação não seja devidamente analisada. Já ouvi dizer também que essas pessoas podem simplesmente ter uma necessidade constante de querer participar, querer ajudar, e acham que têm mais condições do que realmente têm. Talvez seja um misto das duas coisas. Também não considero que seja questão de ambição. Meu conceito de ambição envolve buscar o topo através de dedicação, evolução, mérito. E não se aplica para esses casos.
O Zico já declarou algumas vezes que jamais aceitaria ser técnico do Flamengo. E olha que ele já demonstrou ser muito mais preparado do que Dunga e Maradona, com os trabalhos no Japão e na Turquia. Mas, de novo, não estou discutindo a questão da competência, mas sim de preservar algo muito maior. Zico é o personagem mais importante da história rubro-negra, não faz sentido se submeter à possibilidade de ser chamado de burro pela mesma torcida. Então, acho que faz muito bem em se manter longe da Gávea.
Há pelo menos duas situações na história esportiva que eu considero exemplares e vão mais ou menos nessa linha de raciocínio. A primeira delas aconteceu antes da Copa do Mundo de 1994. O grande Careca, já na fase final da carreira, era o atacante preferido de Carlos Alberto Parreira e foi convocado para o início das eliminatórias. Mas teve auto-análise suficiente para saber que já não tinha condições de apresentar um desempenho parecido com as Copas anteriores, especialmente a de 1986 e pediu dispensa. A seleção se tornaria campeã do mundo na seqüência e não consigo imaginar muitos nomes que teriam tamanha consciência de abrir mão de participar da (na época apenas possível) conquista, que o colocaria num patamar ainda mais alto na história do futebol. Será que se ele permanecesse Romário seria convocado para fazer história? Vale lembrar que ele só foi chamado para o último jogo das eliminatórias, no desespero.
O outro exemplo, esse mais antigo e que aconteceu mesmo antes de eu nascer, aconteceu em 1972. Naquele ano os Los Angeles Lakers se tornaram um dos maiores times de basquete todos os tempos. Estabeleceram o recorde de 69 vitórias numa mesma temporada (recorde quebrado apenas em 1996, pelo Chicago Bulls de um tal Michael Jordan, com 72 vitórias), incluindo o recorde (esse ainda mantido até hoje) de 33 vitórias consecutivas. A conquista do título foi inevitável, o primeiro depois que o time se mudou de Minneapolis para Los Angeles. Antes da primeira das 33 vitórias consecutivas, Elgin Baylor, o quarto maior cestinha em média de pontos por jogo da história da NBA (atrás de Wilt Chamberlain, Michael Jordan e Allen Iverson) e estrela do time ao longo de 14 anos, anunciou sua aposentadoria. Ao longo desses 14 anos, nunca havia conquistado um título, sempre chegava perto, mas não conseguia superar o Boston Celtics. E em 1972, a maior chance estava lá, ao lado de Wilt Chamberlain, Jerry West, Pat Riley e Gail Goodrich. Mas Elgin optou por se retirar após o 9º jogo da temporada, porque sabia que a hora havia chegado – não era mais o mesmo e não poderia contribuir da forma que gostaria.
Concluindo, meu ponto de vista é que a grandeza do esporte está, em
grande parte, nas conquistas, nos ídolos, nas boas memórias. Sou totalmente a favor da preservação e exaltação dos ídolos e fico triste quando alguma situação pode colocar uma história de sucesso em condição de ser questionada. É verdade que os casos que citei envolvem decisões pessoais e que afetariam diretamente apenas aqueles que as tomaram. Mas, na condição de um amante incondicional do esporte, sinto necessidade de poder celebrar carreiras como Magic Johnson, Michael Jordan, Jerry Rice, Careca, Telê Santana, Guga Kuerten, Ayrton Senna, Hortência (para citar alguns daqueles que eu acompanhei) e, no futuro, Rogério Ceni. A espetacular carreira de Elgin Baylor (foto ao lado) fala por si só, com ou sem a conquista de um título. Em nenhum desses casos alguém pode citar algum evento que tenha manchado parte das respectivas histórias. Enquanto isso, ficarei torcendo para que Dunga (se ainda estiver lá) vença o duelo contra Maradona no próximo confronto entre Brasil e Argentina nas eliminatórias.

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