
por Luciano Sobral, o PJ.
O MUNDO DO DR. EVIL
Depois de ter passado 30 anos congelado, o arquivilão Dr. Evil retorna à dura vida de tentar dominar o mundo. O ano é 1997, e seus planos iniciais são: chantagear a família real britânica, criando um boato sobre um relacionamento extraconjugal do príncipe Charles; ou usar raios laser para abrir um buraco na camada de ozônio e expor a humanidade a assustadores riscos de câncer de pele. Após ser informado por seus asseclas que ambos não funcionariam por já terem se tornado realidades, ele opta por uma alternativa mais trivial: seqüestrar um grande número de armas nucleares, deixando o planeta como refém, e exigir da Organização das Nações Unidas um resgate de 1 milhão de dólares. Evil então fica sabendo que 1 milhão de dólares já não valem mais tanta coisa, e que a Virtucon, o braço legal de suas atividades, fatura mais de nove bilhões de dólares por ano. Dessa forma, ele decide alterar o resgate para a então absurda soma de 100 bilhões de dólares.
Tempos difíceis, aqueles. Dois anos antes, o Barings, então o banco de investimentos mais antigo do mundo, quebrou após uma perda de US$ 1,4 bilhão causada por Nick Leeson, um operador da filial do banco em Cingapura. Leeson foi condenado a seis anos e meio de prisão e, depois de libertado, escreveu uma biografia, foi encarnado por Ewan McGregor no cinema, passou a cobrar uma pequena fortuna por palestra e acabou apontado CEO de um clube de futebol na Irlanda. Primeira lição: picaretas viram cartolas de futebol. Segunda lição: picaretas mudam-se para a Irlanda.
Em 1998, após o calote da Rússia, veio a derrocada do Long-Term Capital Management, um gigantesco fundo de investimentos americano que tinha entre seus sócios dois Nobel de Economia e outros tantos “gênios” consagrados no mercado financeiro. A abusiva confiança do LTCM em seus modelos matemáticos gerou um prejuízo de US$ 4,6 bilhões e desencadeou uma reação organizada de boa parte dos maiores bancos que operavam nos Estados Unidos, para evitar um colapso generalizado no sistema financeiro.
Dez anos depois, os prejuízos divulgados pelos bancos mundo afora fazem os números do Barings e da LTCM parecerem uma gorjeta. A Bloomberg estima, ao todo, módicos US$ 685 bilhões. O maior deles, do americano Wachovia, chega bem perto do que Dr. Evil exigia para não destruir a humanidade – US$ 96 bilhões. Nomes obscuros como Indymac e Hapoalim perderam mais que o LTCM e o Barings, respectivamente. E, enquanto digito, a “nossa” Aracruz, que deveria se meter apenas a produzir papel e celulose, divulga que vai perder cerca de US$ 2,1 bilhões para eliminar sua exposição a derivativos de câmbio – o que vai virar notícia, sim, mas da página sete do caderno de economia de alguns jornais.
Sim, mudaram os tempos. A tal “revolução financeira”, que reinou de meados dos anos 90 até muito recentemente, trouxe novos produtos que permitiram, por parte de bancos, fundos, empresas e pessoas físicas, um nível de alavancagem (grosso modo, a razão entre ativos e patrimônio – se, por exemplo, você tem R$ 100 mil e compra um apartamento de R$ 300 mil, sua alavancagem é de três vezes) colossal, o que, em parte, justifica os diversos zeros a mais nos números mais recentes quando comparados aos de dez anos atrás. Ainda assim, tal diferença é grande o bastante para começarmos a levantar a orelha e procurar uma explicação menos óbvia.
Qualquer curso de graduação em economia ensina que a moeda fiduciária (essa dos nossos tempos, cuja única garantia do seu valor é a confiança no banco central que a emite) possui três funções: reserva de valor, unidade de conta e meio de troca. As duas últimas parecem ainda intactas (ainda compramos bens a uma certa quantidade de reais ou dólares, e não de sal, açafrão ou pedras), mas a primeira parece começar a ruir. A intuição é simples: quem deve confiar em um banco central que deixa o sistema financeiro chegar no ponto do futuro do capitalismo ser colocado em dúvida? Ou, analogamente: há pouco mais de dez anos 100 bilhões de dólares seriam suficientes para salvar o mundo. Hoje em dia, mal conseguem levantar um banco comercial.

Um ponto interessante é que a perda de valor da moeda “no atacado” não se observou “no varejo”. Os preços do que você e eu consumimos, exceto se este blog já conseguiu leitores no Zimbábue, não variaram tanto. Os possíveis porquês disso dariam outro texto pelo menos do tamanho deste, portanto vamos ficar no argumento acima: a tal moeda fiduciária, mundo afora, está perdendo o seu valor. Numa possível quarta aparição de Austin Powers no cinema, Dr. Evil (papel que poderia ser de Hank Paulson (foto ao lado), o secretário do tesouro americano, caso Mike Myers esteja cansado de fazer vários personagens no mesmo filme) teria que pedir um resgate de “TRILLIONS of dollars”, e ainda assim correr o risco de parecer modesto. Devemos, então, começar a estocar água, farinha e pólvora e esperar pelo fim da civilização?
A resposta pode ser encontrada nos desfechos das hiperinflações do passado. Hiperinflações terminam por si próprias: a moeda deixa de ser funcional (perde as três características que mencionei acima), é substituída por uma nova, com a promessa do governo que agora tudo vai ser diferente (no capitalismo, confiança e enganação andam de mãos dadas – é só olhar para a história) e tudo volta aos eixos, pelo menos por um tempo. Sim, vai chegar o dia do “novo dólar”, com notas coloridas e efígies de astros do rock ou do beisebol. Pelos sintomas que estamos observando, talvez esse dia esteja perto. Então, o que fazer? Um sábio professor que tive na graduação (Claudio Vieira, seria injusto não citar) dizia que o melhor que uma pessoa pode fazer com seu dinheiro é gastar e deixar as funções de poupar ou investir para profissionais. No mundo do Dr. Evil que estamos vivendo, tal conselho é o mais pertinente que posso encontrar.

2 comentário(s):
Balu, essa definição de moeda fiduciária da Wikipedia em português está horrenda... totalmente errada... esta é bem melhor:
http://www.investopedia.com/terms/f/fiatmoney.asp
No mais, obrigado novamente pelo espaço! Abraço!
Correção de link feita!
Vc é sempre bem-vindo! Dessa vez foi convidado, mas o auto-convite está sempre aberto!
Abraço
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