Quando falamos sobre doação e comércio de órgãos nunca havia pensado por uma outra esfera. Lendo um artigo fui apresentado ao seguinte raciocínio: imagine uma pessoa que você ama muito (marido, esposa, parente...) e coloque agora um estranho que aceita uma aposta, na verdade um risco, de que se essa pessoa amada morrer prematuramente, você ganha alguns milhares ou milhões de dólares. Pois bem, seja bem-vindo então ao seguro de vida!Por que isso não é tão ultrajante, mas se falamos de venda de órgãos a coisa vira uma discussão interminável? Qual o problema de envolvermos dinheiro se na mesa de operação só o doador não recebe? Ou você acha que médicos, hospitais, enfermeiras, companhias farmacêuticas e toda equipe trabalham de graça em nome do altruísmo?
Resolvi escrever sobre esse tema depois de uma discussão acalorada em uma aula quando uma garota e um vermelhinho defendiam a manutenção da proibição do comércio de órgãos com aquela balela de que os “pobres seriam explorados pelos ricos”. Quase tenho uma síncope toda vez que ouço esse tipo de argumento barato. Ainda segundo os 2, os pobres não saberiam se defender ou fazer uma escolha adequada. Já reparou que essa gente quer SEMPRE fazer a escolha POR você e dizer qual a melhor opção PARA você?
Você tem TODO o direito de ser contra por uma questão de princípios ou religiosos, mas àqueles que não se ofendem com os tais princípios e pensam de uma forma mais lógica, longe de dizer que isso seja melhor, gostaria de falar mais sobre o tema.
Um dos argumentos de alguns institutos médicos contra o comercialização é de que o corpo não estaria à venda. Mas se ele não está mesmo à venda, temos que lembrar que hoje óvulos, esperma, sangue e mesmo a barriga de aluguel são comercializados sem maiores problemas. Se você também é contra essa comercialização, tudo bem! Mas você é?
Alguns outros críticos também temem a tal exploração. Mas e se o governo entrar no jogo? Hoje temos traficantes e uma máfia cobrando obviamente a sua parte. O governo não poderia esclarecer sobre a troca/venda de órgãos além de fornecer cuidado médico e psicológico aos envolvidos? Não é injusto que o pobre (ou outro alguém) seja tolhido dessa chance de melhora por uma opção individual dele? Hoje as leis proíbem em quase todos os países a doação entre 2 desconhecidos ainda em vida justamente por uma desconfiança grande de que isto esteja necessariamente relacionado a um pagamento extra-oficial.
No Brasil, lembremos que foi revogada em 1998 a Doação Presumida de Órgãos (Lei 9.434/97) que por aquele princípio todas as pessoas eram doadoras automáticas de órgãos, a menos que tivessem registrado em documento oficial vontade em contrário sem a necessidade de consultar a família. Lembremos também que a novidade provocou muita polêmica.
Qual o principal ponto pelo qual escrevo? Em um artigo publicado em um blog fui direcionado a uma matéria da importante The Economist que resume uma pesquisa sobre demanda e oferta de órgãos humanos para doações. Na matéria você encontra uma tabela de doação de rins e consta lá uma liderança Iraniana (em que há comércio de órgãos) seguido pelos EUA e um destaque para a Espanha com eficiente índice de coleta, um ponto fundamental para se reduzir a mortandade.
Mas para quem não se ofende com o comércio precisamos nos ater ao fato de que o sistema baseado tão somente no altruísmo humano não vence resolver o problema. Segundo estatísticas, 95300 americanos esperam um rim sendo que 6700 deles morrem anualmente (ou 1 a cada 1h30).
Já que então apenas esperar a boa-ação não resolve, pessoas como David Undis, diretor executivo da LifeSharers, argumentam que esteja faltando incentivos para a doação. Para Undis um mercado de órgãos salvaria milhares de vidas todos os anos. Ele cita também outros incentivos não-monetários muito interessantes! Um deles é uma fila preferencial àqueles que se auto-declaram doadores quando vierem a falecer. Isso foi sugerido em 1998 no Brasil e rechaçado, não entendo o porquê. Outros incentivos segundo Undis seriam a dedução de impostos, seguro-saúde, bolsa de estudos aos filhos, bônus-prêmio na aposentadoria e por aí afora. Por sua vez, o Senado da Carolina do Sul saiu com um outro incentivo inusitado. Eles decidiram dar aos presos que optassem pela doação 180 dias de redução de pena. Mas isso é ilegal na Constituição Americana.
Bom, a coisa ainda vai mais longe podendo cair até em questões de princípios morais. Por exemplo, hoje em dia na maioria das filas o que está há mais tempo tem a preferência, mas já há quem defenda que pelo fato dos mais jovens (que teoricamente usariam o órgão por mais tempo) serem mais beneficiados, deveriam ter assim uma suposta preferência na hora do recebimento. A escolha sairia do quesito tempo para ser uma escolha médica. Difícil ficar indiferente...
Mas o ponto que tento discutir aqui é que já que há um consenso de que hoje o sistema é insuficiente, por que não tentar mudá-lo? Eu acredito que o comércio regulamentado iria aumentar a oferta de órgãos, reduziria a fila, aproximaria o pobre do seu “esperado” dia além de não privá-lo de exercer controle sobre o que é seu. Isso tiraria o mafioso, bandido (ou qualquer nome que queira dar) e/ou terceiros que lucram ilegalmente com o sofrimento alheio.
Mesmo que você esteja irredutível, qual seria o problema de oferecer ao menos vantagens não-monetárias ao doador? Uma recompensa maior não ajudaria a todos?

2 comentário(s):
Que vespeiro, hein meu caro?
Concordo contigo quando você diz que se algo não está dando certo do jeito que se encontra é preciso mudar. A questão da venda ou não é parecida com tantas outras no Brazil: ela já existe - é apenas questão de regular.
Mas antes disso, ainda acho que se deve insistir na doação espontânea.
As campanhas educativas são esporádicas e não tocam o fundo da questão: pessoas morrem. Morrem porque por razões diversas - religião incluído - os familiares preferem alimentar minhocas do que salvar vidas.
As únicas vezes que ouvimos falar de doação de órgãos são quando numa tragédia alguém envolvido tem morte cerebral. Enquanto as organizações que tratam do assunto esperarem que tais decisões sejam tomadas no momento da morte, durante um período de extrema dor, a esperança para esses pacientes continuará sendo enterrada.
RECORDAR É VIVER: os momentos em que a doação de órgãos saem das sombras são quando esse tema é abordado nas novelas da Globo. Em 1992 "De corpo e alma" abordou o tema (http://pt.wikipedia.org/wiki/De_Corpo_e_Alma) que voltou à carga em "Mulheres apaixonadas" (http://pt.wikipedia.org/wiki/Mulheres_apaixonadas), de 2003. Em ambos os casos os números de doações dispararam.
As pessoas precisam de aprovação social para esse tipo de atitude. Necessitam de algo que lhes dê o exemplo. E acredito, particularmente, que isso pode trazer um resultado mais rápido do que regulamentar a venda.
Outro ponto a se considerar é a infra-estrutura necessária. Nosso sistema de saúde estaria pronto para atender a um grande aumento de doadores, dadas as condições extremas em que isso deve ser feito? Do contrário todo esforço terá sido em vão.
Mas é importante levantar essas questões, por mais polêmicas que sejam. Senão a terra há de comer.
Pois é Rodolfo, vespeiro! Tb acredito mto na força de uma campanha de esclarecimento junto à população. Em especial junto aos mais carentes!
Mas tb temos que ver que mesmo em países com gde infra-estrutura na coleta (Espanha e EUA, por exemplo), a demanda ainda é mto maior que a oferta.
Não prego que a solução esteja apenas em um pto (criar um mercado). Acredito, sim, que a solução esteja TB no mercado. No Brasil ainda temos que melhorar a educação (como vc disse), melhorar a infra-estrutura na maior parte do país (SP é uma espécie de ilha de excelência) E criar incentivos.
Abraço
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