Quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

De Batman ou do porquê do Capitão Nascimento não ser o novo Robin.


*não há no artigo passagens que revelem conteúdo fundamental aos que ainda não assistiram o filme.
Antes de tudo, “The Dark Knight” (Batman - O Cavaleiro das Trevas, EUA, 2008) é um filme que merece ser visto e revisto nos cinemas e posteriormente ser adquirido em DVD. Dá pra arriscar dizer que as adaptações cinematográficas de HQs jamais serão as mesmas após esse Batman. Jamais!

Que as histórias dele são mais sombrias do que as de heróis como Super-Homem ou Homem-Aranha todo mundo já sabia. Que ele é psicologicamente mais atormentado que os heróis de X-Men também sabemos. Mas nunca um filme baseado em HQs havia se arriscado em trazer a tona o que há de mais escondido na mente de um homem. Nem mesmo Homem-Aranha e sua dúvida sobre ter poderes e responsabilidades.

Pra quem viu o último Batman, a Gotham City dark e caótica dele dá lugar a uma cidade iluminada logo no início do filme. Estranho, não? Não se acostume! O mais sombrio e mais agressivamente pessimista das adaptações de HQ está apenas começando. Um pessimismo que você verá, é quase insuportável.

Se você não viu Batman Begins (EUA, 2005), não se preocupe! Não é essencial, mas obviamente melhor você tê-lo visto. Isso porque certas decisões tomadas por Bruce Wayne no novo filme são melhor compreendidas ao saber o que se passou antes. Mas vendo ou não você verá que um dos inúmeros méritos do filme é que ele justamente dá prosseguimento à trajetória do Batman ao invés de ser apenas mais uma aventura com o personagem.

Lá você será apresentado a Harvey Dent (Aaron Eckhart) o "cavaleiro branco" que é o novo rosto da lei e da ordem em Gotham. Ele é o herói que não precisa usar máscaras para combater o crime. E é justamente o fato de não usá-las que fará com que Bruce Wayne e Batman apóiem o promotor de forma incondicional e irrestrita, passando por cima inclusive do ciúme que Wayne tem do namoro de Dent com Rachel Dawes (a boa e bela Maggie Gyllenhaal substituindo a fraca Katie Holmes no papel). Este seria então o sinal de que dias melhores virão também para Bruce Wayne. Mas os planos do herói em levar uma vida normal serão adiados com o surgimento de um vilão nada usual, que não segue regras.

Coringa é um elemento do caos, um vilão que não quer ganhar dinheiro, mas sim ver o circo pegar fogo. Sua anarquia é tamanha que surpreende o próprio Batman. O ator australiano entra para a história como uma das melhores e mais impactantes atuações como um vilão na história do cinema. Com certeza a emoção em torno da perda de Heath Ledger só fez aumentar a admiração pelo seu trabalho. Mas que isso não tire também o foco da atuação de Christian Bale. O ator, que já havia me supreendido em Batman Begins, aparece ainda mais seguro neste segundo filme. Ele nos faz esquecer de outros lamentáveis como Michael Keaton, Val Kilmer e George Clooney. Por exemplo, para alguns chega a irritar, mas prefiro dizer que é de impressionar a diferença na voz de Bruce para a de Batman.

Há ainda um elenco que conta com as voltas de Gary Oldman como o triste, gentil e torturado Comissário Jim Gordon, Michael Caine como o mordomo Alfred com um humor preciso e sempre dentro do contexto e Morgan Freeman como Lucius Fox e Cillian Murphy como o Espantalho.

Voltemos a quem rouba a cena... o Coringa, um psicopata perigoso, assassino sem dó, extremamente perigoso provoca medo até naqueles que o cercam e que estariam teoricamente ao seu lado. Ele, como disse, quer tão somente o caos. Você também aprenderá a temê-lo. Ele é diferente, ele tem um desejo único de destruir a tudo e a todos. Seus motivos? Você não consegue sequer intuir, nem medir ou compreender. Leitor, esteja atento à ótima explicação dada pelo Mordomo Alfred! Talvez antes disso você faça o paralelo em que o bilionário Wayne e seu alter-ego têm a perfeição e o Coringa o desfeito e o desorganizado com sua maquiagem tosca, porca e borrada, a voz estranha, os trejeitos, as roupas mal costuradas e a absoluta falta de limite personificando tudo.

Batman x Coringa ???
Assim como você, talvez a imensa maioria vá ou tenha ido aos cinemas achando que se trata de um combate bipolarizado, certo? Estávamos errados! Mas se o nome do filme não diga tudo tão diretamente, ao menos saiba que este é o mais dark dos heróis. Explico: a tese não é apenas que os super-heróis dependeriam dos vilões para existir, é que eles mudam no contato com essa maldade doentia. Mas você sabe que nem sempre para melhor. A diferença FUNDAMENTAL do Batman para todos os demais heróis que foram para o cinema até agora é que ele é o primeiro e único sem poderes especiais. Ele é humano tal qual você e eu. Ele sempre foi e será um humano que é atormentado e sacudido por um trauma violento que poderia acontecer com qualquer um de nós.

Pois nessa sua trajetória de combate aos criminosos que tentam impor o caos à cidade virá à tona o lado obscuro do Batman, aquela versão onde para combater o crime você precisaria desrespeitar certas leis. Batman agora parecerá começar a obedecer uma noção muito particular de Justiça, de uma maneira cada vez mais extrema.

E é esta a grande questão do filme!! Os atos imprevisíveis do Coringa farão com que ele tenha que ir ao extremo de suas crenças e daqueles que acreditam na forma correta da Justiça e na existência da bondade na humanidade. E ela existe? O interrogatório na delegacia e a decisão dentro dos navios são exemplos da transposição maravilhosa destas questões para a tela. Conseguir levar isso ao cinema é sem dúvida o grande e quase inigualável trunfo do filme.

E qual seria o limite entre o certo e o errado?
O que determinaria exatamente o lado bom ou mau? Justo ou injusto? E são justamente esses alguns dos questionamentos vividos no filme. E é aí que entra o filme “Tropa de Elite”. Sabe por que ver Batman ultrapassando o limite que se espera de um super-herói não chega a incomodar? Algumas pessoas têm uma dificuldade de entender o que se passa dentro do cinema e apenas lá dentro. Dentro da sala você deveria saber diferenciar a ficção da realidade. O cinema pode fazer pensar, por isso você não pode achar que um filme como “V de Vingança” ou o “Tropa de Elite” são pura apologia, pois não são. Mesmo aquele sendo irresponsável e este tão esclarecedor.

Um homem vestido de morcego combatendo os crimes na vida real seria taxado de louco. Mas ele vira herói, justamente por combater o crime no mundo imaginário. Se isso não incomoda a militância, o que incomoda é que quem transponha uma regra, como o Capitão Nascimento fez no excelente “Tropa de Elite”, tal qual Batman, não seja real. Repito: os que se sentiram incomodados, ficam ainda mais incomodados porque aquele brasileiro não existe. Ele é uma ficção. Tal qual Batman! Como posso criticar ou justificar algo que não sei se existe? Mas isso para qualquer bípede fica claro já na 1ª cena de Batman porque você sabe da premissa de que tudo é uma fantasia. Mas os questionamentos morais estão lá. Todos lá. Em uma quantidade nunca antes vista em um filme de HQ. Todos eles. Intercalados com explosões e com representações excelentes de grandes atores.

Realmente imperdível.

Curiosidades:
Duas cenas merecem atenção. O desfecho da cena do hospital e a seqüência do caminhão não são frutos dos efeitos especiais. Foram reais e, você verá, exigiam um take único porque não permitia segunda chance.

Este é também o 1º filme do herói que não carrega o nome no título original.

1 comments:

Fernanda disse...

Post fantástico! Aliás o filme é fantástico!
Parabéns!