Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

De Honduras e da nossa crise de saber o que é Democracia

Eu não sabia, mas a nossa República de Bananas deve o apelido indiretamente ao humorista americano William Sydney Porter, que viveu em Honduras no início do século XX. Morando lá ele definiu o país como uma "República bananeira". Como aqui na América Latrina o que não falta é governo corrupto e país sem leis, o termo foi popularizado, adotado por nós, mas Honduras que foi, sim, a primeira República de Bananas.

Nada mais justo que fazer valer a fama. Eis então que o presidente eleito do país, Manuel Zelaya, perdeu o poder. Mas teria sido um golpe?

O PTista é um tipo de pessoa que consegue transformar até tumor em categoria de pensamento. Veja como a ministra Dilma é melhor por tê-lo e o crítico PTista Reinaldo Azevedo é o inverso justamente por também possuir os seus. Para os amigos deles qualquer coisa é um sinal de virtude, nos outros, uma explicação para seus defeitos. Nesse ritmo não faltou para que a derrubada de um presidente também assim o fosse.

Visto do que está na constituição hondurenha, o presidente caiu por seus defeitos e excessos, não por suas virtudes. Ele caiu porque agrediu a carta magna do país, não porque era um exemplo. Para quem ainda não acompanhou a situação, o presidente quando eleito era um típico político de centro-direita. Com o passar do governo começou a debandar para a esquerda se aproximando do protoditador venezuelano Chavez. Até aí tudo bem, mesmo que pra isso tenha traído seus eleitores. Mas eis então que seguindo o que manda a cartilha dos demais novos protoditadores latinos, ele passou a fraudar a Democracia querendo mudar a lei do país via plebiscito para se perpetuar no poder. E como se faz isso? Populismo barato ferindo os princípios democráticos. Com os seus planos descobertos e com a realização de um plebiscito negado, foi deposto seguindo o que está escrito nas leis do país. Mas para os intelectuais da esquerda, quando um esquerdista cai por excessos, é golpe. Quando ele dá o golpe na Democracia, seria para o nosso bem.

Pois bem, enquanto escrevo esse post, estou vendo uma entrevista de nosso Celso Amorim na TV Globo dando mais uma de suas declarações vergonhosas. Para ele, a diferença entre o que ele chama de golpe em Honduras e o que se passa em Cuba seria a duração do ocorrido, como em Cuba isso se passou há mais de 50 anos, ele seria permitido. Palavras de Amorim! Para ele, por durar muito, seria legítimo e o de Honduras não duraria sequer 3 meses. Seria o caso então de Fidel Castro mostrar ao ex-presidente como se mata opositor para durar mais no poder?

Amorim ainda acrescenta que o governo atual não tem sequer legitimidade de convocar eleições. Mas Fidel teria? Os cubanos sabem, aliás, o que é uma eleição na prática? Celso Amorim é uma vergonha nacional. Aplica-se também a ele uma brilhante frase usada e adaptada pelo blogueiro do maligno tumor, Reinaldo Azevedo, em um post sobre Lula e o pensamento PTista: Bastaria que ele, Celso Amorim, sentindo aquela vontade irresistível de pensar, tivesse a educação de esperar a vontade passar.

Deste presidente deposto hondurenho não tenho qualquer simpatia, óbvio. Do governo provisório, tampouco! Mas como 2 erros não fazem jamais 1 acerto, está na hora dessa turma pilantra começar a dar nomes certos aos bois. A carta magna de um país democrático deve ser seguida, e jamais ser alterada em nomes de princípios escusos como garantia de um suposto bem maior.

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

De rins, transplantes, capacetes e motos.

escrevi aqui sobre o que eu acho como uma das saídas viáveis para aumentarmos o transplante de rins diminuindo o sofrimento dos que estão na fila de espera. Sou a favor da comercialização dos órgãos, pois aumentaria muito a oferta deles, reduziria a fila unificada pela espera, acabaria com qualquer possibilidade de um mercado negro que já existe na Ásia e ainda daria a muita gente que morre com 2 rins a chance de uma vida mais digna com o pagamento oferecido.

Tem gente que é contra apenas com o argumento tosco de proteger os pobres. Esses querem pensar por eles e por todos nós. Outro ponto importante é para aqueles que colocam no RG que não são doadores. Então esses que caiam para o final da lista unificada. Isso também ajudaria e é muito mais justo.

Por fim, o estado deveria esclarecer à população que não há razão para se ter medo de ser um doador com o medo infundado de perder órgãos ainda vivo. Isso não existe! O que mais o estado poderia fazer para ajudar seria deixar de lado a exigência dos motociclistas de usarem capacete. Mas como assim??

Ao contrário do que muita gente pensa, usar capacete não é obrigatório em todo o mundo. Muitos países não adotam a medida por questão de dar liberdade de escolha ao usuário e outros se baseiam ainda em pesquisas que indicam que motociclistas e ciclistas quando utilizam capacete acabam muitas vezes sendo mais agressivos enquanto guiam por terem uma sensação maior de segurança e invulnerabilidade, causando assim ainda mais acidentes.

Nos EUA, onde os estados podem ter leis locais muito diferentes, um pesquisador publicou um estudo muito interessante. O Texas se juntou a outros 5 estados onde não há mais a obrigatoriedade do equipamento desde 1994. E o estudo vai justamente nessa diferença na lei, pois estes estados apresentam desde então uma maior disponibilidade de órgãos para transplantes. Teria a população texana ficado assim mais sensível ao drama alheio doando mais? Não! Os acidentes gerados agora resultam em mais órgãos para doação!

Seria moralmente correto apoiar uma lei dessas por causa desse efeito colateral? No país campeão mundial de mortes no trânsito e em uma cidade como São Paulo, onde morre 1 motociclista por dia útil, o que será que aconteceria se diminuíssem os acidentes? Teríamos assim uma queda na oferta de órgãos? Temos algum benefício que seja com tamanha carnificina? Não creio, mas tampouco podemos garantir. Quem vai fazer a pesquisa?

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

Sobre cupom e metas de compras

Estou lendo o sensacional “Risk – The Science and Politics of Fear” do autor Dan Gardner, livro que pretendo mais pra frente escrever uma resenha. Nele entre outras coisas o autor mostra a dificuldade que temos com alguns números e como somos traídos em nosso comportamento quando temos que lidar com vários deles que aparecem aos montes à nossa frente.

Tem gente que acha que consegue ser perfeitamente racional, não deixando assim em nada se influenciar. Mas será mesmo que somos assim racionais? Não mesmo.

No livro, Gardner mostra um exemplo de uma pesquisa em um supermercado, um verdadeiro laboratório para pesquisas. Os pesquisadores notaram que em uma grande promoção de feijão em lata (baked beans) os consumidores se comportavam de maneira muito diferente com uma pequena alteração no anúncio aos consumidores. No grupo em que a promoção não trazia “regras”, os clientes levavam em torno de 2-3 latas, mas quando o supermercado disponibilizava o aviso de “no máximo 10 latas por pessoa”, os clientes saíam com 6-7 latas cada um. É o tal efeito âncora, quando você disponibiliza qualquer número a uma pessoa e algumas de suas decisões e escolhas imediatamente futuras são muito ligadas a esse número aleatório.

Esse efeito também pode ser atribuído à perseguição de uma meta por parte do consumidor. Para provar essa teoria, em uma loja de conveniência com média de vendas na ordem de U$4,00 por cliente, começou-se a oferecer cupons de desconto de U$1,00 para cada U$6,00 em compras e também para outros clientes um cupom de igual desconto (U$1,00) para cada U$2,00. O que aconteceu? Houve comportamentos distintos?

Aqueles que receberam o primeiro cupom passaram a gastar mais para que pudessem utilizar os cupons, de acordo com o que eu já disse aqui tempos atrás em outro post. Mas o mais estranho foi que os outros clientes passaram a gastar menos mesmo quando gastando os habituais U$4,00 teriam o mesmo desconto com o cupom! Estranho, não?

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Educação, matemática, sexismo e as tais diferenças inatas...

Lembro que não faz muito tempo vi uma reportagem que mostrava um daqueles pesquisadores com um estudo que prometia provar a superioridade intelectual de um dos sexos. O estudo picareta mostrava que no futuro o mundo seria dominado pelas mulheres porque numa bateria de 9 testes elas se sobressaíram em 6, justamente os que supostamente seriam mais determinantes para a humanidade num futuro não distante. Algumas pessoas saudavam isso como um alento, uma coisa boa, uma prova de que o homem não é melhor do que a mulher, ele seria, aliás, pior. Eu vi aquilo como uma pesquisa tonta porque era muito superficial. Mas eu fiquei é imaginando onde o cara iria arranjar financiamento ou rede de televisão dispostos a divulgar um resultado diferente, onde em 8 dos 9 testes os homens se saíssem melhores e que assim nós então teríamos é que nos acostumar e iríamos sim esperar e ver mulheres saindo cada vez mais de cena.

Seria isso possível? Duvido! Mas bem antes desse estudo mais uma vez uma grande autoridade do mundo acadêmico falou algo relativo ao tema de modo que acabou sendo mal interpretado e teve que se explicar porque alguns radicais ouvem o que querem, inventam e atribuem frases não ditas. O nosso ex-presidente FHC nunca disse “esqueçam o que eu escrevi”, mas até hoje lhe cobram explicação. Pois o presidente (ou reitor) de Harvard teria sugerido alguns anos atrás que haveria uma diferença inata entre homens e mulheres que faria com que aqueles se sobressaíssem quando comparados com elas nos campos da matemática, ciências exatas e engenharia.

O maior erro do reitor de Harvard, Lawrence H. Summers, talvez tenha sido mesmo a questão do exemplo negativo dado às futuras estudantes, pois se uma autoridade dessas diz isso, fica mais difícil (mas não impossível) convencer e incentivar a sua sobrinha de que ela pode ser uma grande física nuclear, por exemplo. Mas daí querer a cabeça dele como já se quis também a de outros acadêmicos que deram declarações semelhantes é um abuso!

Qualquer declaração do gênero é infeliz, politicamente incorreta, mas não de todo errada se você analisa o que foi dito. Vale lembrar que o mesmo incômodo que há com a baixa presença feminina nestas áreas, não gera o mesmo desconforto em outras áreas reconhecidamente “delas”. Mas voltemos.

O reitor Summers deu 3 motivos principais para a grande desproporção entre os gêneros, mas foram ignoradas por muitos dos ouvintes. A primeira é que por causa da maternidade há naturalmente menos mulheres dispostas à dedicação acadêmica. Uma segunda razão dada por ele e que ainda desperta os instintos mais primitivos nos críticos é dizer que há muito mais garotos entre os estudantes de altas notas em matérias exatas nos colégios. Isso não é opinião, são números. Se isso serve de consolo, há muito mais garotos também com as piores notas, ou seja, a distribuição das notas entre as mulheres é mais concentrada, as dos meninos mais distribuídas aos extremos, mas as médias são muito similares. E o terceiro fator seria finalmente um preconceito nas universidades que ele julga ser o menos decisivo por uma lógica válida, as mulheres já são minorias na amostra das melhores notas antes de entrarem nos cursos dessas áreas. Ou seja, ele não quis dizer que o homem é melhor do que a mulher, mas que há uma questão inata para que nós homens sejamos maioria nesses cursos. Falou besteira? Não mesmo.

Alguns estudos já tentaram entender e explicar o porquê de haver mais homens que mulheres. Elas são muitas e podem ir do temperamento à pura discriminação. Mas uma recente pesquisa do National Bureau of Economic Research Working Paper relacionando o gênero e os resultados acadêmicos na Academia da Força Aérea Americana (U.S. Air Force Academy), entretanto, encontrou dados muito interessantes para aqueles que tentam estudar o assunto.

O estudo feito pelos economistas Scott Carrell e Marianne Page da Universidade da Califórnia e pelo colega deles, James West da U.S. Air Force Academy (USAFA), encontrou que trocando um instrutor homem por uma instrutora mulher há um efeito extremamente significativo para reduzir a diferença entre os sexos.

O trio de economistas examinou 9481 cadetes graduandos que foram alunos de 250 diferentes instrutores de ciências e matemática na USAFA de 2000 a 2008. Se mulheres alunas de professoras se saem melhor (ou pior) seria porque os professores atraem melhores (ou piores) alunos ao invés de ensiná-los melhor? Seria porque professoras facilitariam as provas para que as alunas mais fracas se saiam melhores? Seria ainda algo completamente diferente?

Vejamos, na USAFA o currículo, os protocolos e as provas e testes são extremamente rígidos, o que deu aos pesquisadores condições ótimas para o estudo porque tudo era padronizado, igual para todos os alunos. Além disso, os alunos são distribuídos aleatoriamente entre os diferentes professores, sendo assim, não há chance de escolha para o aluno (homem ou mulher) escolher o professor ou o sexo deste.

O que os economistas viram foi que as mulheres obtêm notas 0,15 (metade da diferença entre um A+ e um A-) menores do que os homens. Mas aí vem o interessante. Essa diferença é maior quando a aluna tem um professor homem, mas quando a instrutora é mulher, a diferença cai em 2/3! No lado masculino, os homens com instrutores homens também tinham notas melhores do que aqueles com instrutoras, mas essa diferença não era tão grande.

Ou seja, os pesquisadores atribuem boa parte da diferença de desempenho entre os sexos na USAFA pelo fato de que apenas 23% das turmas têm instrutores mulheres. Para estes estudantes, elas acabam reduzindo muito a diferença nas notas e desempenho, muito mais pelo fato das mulheres terem notas maiores do que pela dos homens estarem pior.

Mas outro ponto importante é que ter um instrutor homem para uma aluna não é decisivo apenas nas notas ou em sua formação no primeiro ano, isso porque o quão bem elas se saem em seu ano introdutório para elas indica as chances de se obter futuramente um título acadêmico.
Mas, afinal, por que ter uma instrutora muda tanto o desempenho das alunas? Seria porque ver uma mulher naquela posição seria encorajador? Se fosse apenas isso, já saberíamos o que é necessário para cada gênero se sair melhor, mas acontece que o estudo também viu que com alguns professores homens não há aumento da discrepância entre gêneros e com algumas instrutoras as alunas tampouco acabam saindo-se bem. Ou seja, alguns homens são muito bons ensinando mulheres, então apenas um suposto modelo feminino não explicaria o resultado.

O que faria então desses homens bons professores? Atribui-se a alguns o fato de por terem filhas, serem também bons mentores e de alguns outros terem uma empatia desenvolvida para desafios que as alunas têm que enfrentar na vida. Seria isso mesmo? Ou um estilo diferente de ensinar explicaria tudo? O estudo não se baseou nos professores e suas metodologias, então a pergunta fica ainda sem resposta.

Sendo assim, um dos pilares para se combater uma presença feminina menor nesses campos é entender justamente o que faz de um professor (seja ele homem ou mulher) mais efetivo com alunas. O problema é você cair na solução simplista de começar apenas a contratar professores mulheres para resolver o “problema”. Assim você cai na burrice e racialismo das cotas. Para contratar mulheres professoras você terá assim que deixar homens competentes do lado de fora tão somente porque eles são... homens! E não há causa que justifique isso uma vez que nenhuma mulher pode ser deixada também de fora por ser mulher.

Por outro lado não adianta acharmos que ser “bonzinho” com as alunas ajudaria, já que a questão da razão não está respondida. Talvez uma medida simples seja deixar claro que a diferença entre um A- ou B+ não é o que determina o seu futuro acadêmico como muitas mulheres exigentes acreditam hoje. O que podemos concluir é que ajudando de maneira meritocrática a se reduzir a diferença é algo essencial caso queiramos nesses campos de atividade uma proporção mais homogênea entre os gêneros.

Mas não custa reforçar, sem cotas!

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

Jaleco Branco para quê?

Foi divulgado recentemente nos EUA que a American Medical Association (AMA) recomendou em um relatório mais estudos para colocar em prática uma resolução ainda em avaliação que obrigaria os hospitais a adotar novos trajes e nova política de vestimenta acabando de vez com o uso dos tradicionais jalecos brancos e de qualquer outro traje que ajude a aumentar a propagação e os casos de infecções hospitalares.

O motivo da decisão da AMA é o grande número de estudos que relaciona infecções hospitalares com os aventais, além da já conhecida hipertensão pela Síndrome do Avental Branco que eleva a pressão arterial de pessoas normotensas no momento da medição.

Se há tanta evidência da inutilidade do avental ou do mal que algumas vezes ele causa, por que mantê-lo? Por uma questão social! Quando você vê alguém de jaleco você deduz que ele é um médico, mas isso é ainda melhor pra ele visto a grande admiração que a profissão ainda tem. E você pode notar isso pela mania tonta de se andar com o estetoscópio pra lá e pra cá. É a única profissão em que o profissional fica andando com o instrumento de trabalho desse jeito. Eu não perco tempo e fico imaginando o mecânico andando com o macaco hidráulico ou um grifo na mão.

A profissão, assim como todas as outras da área de saúde, começou de uma forma completamente diferente daquilo que temos hoje. Entre outras coisas tivemos o desenvolvimento de procedimentos anticépticos, vacinas para crianças, para idosos e o advento das anestesias que prolongaram a sobrevida dos pacientes reduzindo a sua mortalidade.

Os jalecos começaram a ser usados simbolizando pureza, mas também higiene, não à toa até oficinas mecânicas, pensando nesse simbolismo, agora também exigem que os funcionários estejam usando aventais. Mas nem sempre foi assim, pois consta que até fins do século XIX, médicos e enfermeiras utilizavam roupas pretas! E apenas em 1915 os médicos em hospitais tiveram que passar a usar os aventais brancos.

O argumento daqueles que defendem a tradição é o fato do avental supostamente acalmar as pessoas e dar-lhes confiança. 56% dos entrevistados em uma pesquisa acreditam que eles devam usar os jalecos contra apenas 24% dos médicos que acham o mesmo. Os mais velhos concordam mais com o uso enquanto os mais novos tendem a achar que não. Outro estudo encontrou que pacientes acreditam e confiam mais nos médicos quando eles utilizam avental.

Mas nem todos os tipos de médicos gostam de utilizá-los. Os pediatras e psiquiatras normalmente não o usam. Na Dinamarca e Inglaterra os pacientes não fazem questão, então eles usam menos. Mas adotando a medida, parece que a AMA não seria a pioneira, visto que o Serviço Nacional de Saúde na Escócia estabeleceu o fim do avental branco no final de 2008 e agora haverá um outro padrão de cores para todos os funcionários. Parece mesmo que a tendência é para o fim deles.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Quanto duram as amizades?

Tem gente que acha que amigos são para sempre. Outros são mais pragmáticos e sabem que amigos, tal qual diz a famosa música Filtro Solar que já citei aqui quando falava sobre saudosismo tonto, vão e vêm, também como resultado da correria do dia a dia e da mudança de nossas redes de contato quando migramos da escola para a faculdade e depois nos diferentes empregos.

Pois eis que um novo estudo muito interessante veio mostrar que daqui a 7 anos o seu grupo de amigos será muito diferente do que é hoje mesmo que mantido o mesmo tamanho.

O estudo da Utrecht University feito pelo sociólogo Gerald Mollenhorst entrevistou 604 pessoas acerca de suas amizades e 7 anos depois fez o mesmo descobrindo que apenas 48% das pessoas se mantinham na rede de relacionamento delas. É um fato que o e-mail e o celular aproximaram as pessoas e ferramentas como o orkut e o Facebook facilitaram enormemente que mantenhamos contato com muito mais pessoas. Mas o que eles e as novas ferramentas virtuais criadas a toda hora (Twitter??) poderão fazer? Só o tempo dirá.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Cuidado com o garçom? Eu acho que basta ser educado...

Tem uma piada muito boa que o meu amigo André Britto fazia quando íamos almoçar juntos ali na Vila Olímpia em nossos tempos de adidas. Quando ele percebia que o garçom estava correndo todo atarefado anotando nossos pedidos ele perguntava se o garçom havia anotado o pedido dele, o garçom para não parecer distraído ou lento dizia que sim, e meu colega André completava dizendo a verdade: mas eu ainda não pedi nada!

Para fechar o André fazia apenas mais um pedido: “Por favor, não cuspa no meu prato”. Sabe como é, né? Em tempos de fim da obrigação do diploma universitário para jornalista, durante pronunciamento de voto no STF a profissão de jornalista é comparada com a de cozinheiro, tal qual diz Tutty Vasques, não custa lembrar que cozinheiro ofendido é um perigo!

Essa lenda de vingança que o pessoal da cozinha faria com clientes mal educados é o tipo de coisa que eu prefiro acreditar. Eu NUNCA trato mal esses funcionários. Quando eu estava em Budapeste eu conheci uma americana meio louquinha que começou a fazer um monte de piadas com um garçom enquanto jantávamos, mas o inglês dele era meio precário não entendendo que eram tudo piadas daquelas bem simpáticas e não reclamações. Aí eu quebrei o gelo porque fiquei preocupado.

Mas seria lenda ou coisas piores acontecem? Faz um tempo apareceram as provas, 2 funcionários da Domino’s Pizza em North Carolina (EUA) foram despedidos, multados e ainda correm o risco de serem presos porque colocaram no Youtube (em vídeos que depois foram retirados) cenas em que temperavam as pizzas que faziam com algo a mais tirado do nariz.

Pra não correr o risco, prefiro continuar sendo simpático e educado, apesar de dizerem que o que os olhos não vêm, o coração e o nosso paladar não sentem.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Pôquer...

No final do ano passado aconteceu com o pôquer de um modo meio despercebido aquilo que já havia acontecido com grande repercussão no Xadrez. Em Las Vegas um programa de computador venceu alguns dos melhores jogadores de pôquer do mundo. Quando um computador 11 anos atrás venceu em uma série de jogos o Garry Kasparov, para muitos o maior enxadrista da história, ficamos achando que a última das grandes barreiras havia sido superada em um jogo.

O placar foi 3x2 (e 1 empate) para a máquina. Além do fator sorte presente no pôquer, outro desafio dessa disputa é o blefe, os “jeitos e bocas” que somente uma pessoa tem. E a grande diferença está mesmo na informação que altera a reação humana. No xadrez você conhece todas as “cartas” do adversário, quando no pôquer você não tem esses dados. O Xadrez é muito determinista, sem o fator sorte e no pôquer as variações de um jogo são tão grandes que você precisaria de semanas ou mesmo meses de partidas seguidas para saber com grande validade quem seria mesmo o melhor dos jogadores sem que dependesse do acaso.

Para que o desafio fosse mais válido foram então reduzidas as possibilidades de sorte. Usaram, assim, o Poker Texas Holdem que é uma versão mais simples do pôquer. Além disso, as partidas foram duplicadas e cada jogo envolvia 2 jogadores competindo simultaneamente contra a máquina, o novo programa Polaris. Para reduzir o peso da sorte, a mesma mão era usada nas duas partidas de forma que cada um dos humanos tinha posições opostas contra a máquina, representada por um laptop. Ou seja, se um dos jogadores pegasse uma mão boa, o outro necessariamente pegaria uma ruim. Somando-se os resultados saía o vencedor homem, máquina ou empate. Vale lembrar ainda que este desafio pode não ter sido o derradeiro uma vez que não foram feitos os cálculos para saber se essa duplicação de mãos é realmente efetiva contra o peso da aleatoriedade no resultado final.

E qual a utilidade de um programa como esse que ganha de jogadores de pôquer? Por ser uma aposta, um programa de pôquer online pode ser muito utilizado em leilões fechados com várias empresas competindo em uma privatização, por exemplo, onde ninguém sabe a aposta do outro. E por que não também, em leilões virtuais como o e-Bay? É bem possível!

O projeto para viabilizar o Polaris demorou 5 anos desde a concepção da ideia. No começo duvidaram da capacidade dele em ganhar contra profissionais do jogo, ainda mais quando em 2007 ele perdeu para profissionais em Vancouver, British Columbia. Um dos méritos melhorados no Polaris foi sua capacidade de analisar os estilos diferentes dos adversários de carne e osso sendo inclusive mais agressivo quando quer forçar a desistência do adversário.

Acontece que não é qualquer jogo que ganha a dedicação e o investimento de um projeto desses, mas o pôquer é assim mesmo, um pouco cultuado, tradicional, diferente e especial. É um jogo que por causa da legislação americana, na disputa do “mundial feminino” (World Series of Poker), por exemplo, os organizadores no casino não têm como proibir a presença de um jogador homem. Assim, um homem pode cair no inusitado de ser campeão feminino de uma competição que deveria ter naturalmente uma mulher como vencedora. Esse dia ainda não chegou, mas já houve alguns poucos homens competindo e chegando longe.

E já em um outro estudo interessante feito com mais de 100 jogadores pela Nottingham Trent University, por exemplo, mostrou que 68% das mulheres que jogam online em sites de jogo de pôquer escolheriam jogar como um personagem masculino, pois assim chamariam menos atenção da “mesa”. Na mesma pesquisa mostrou-se que os apostadores online são muito menos avessos ao contato social do que se supõe, pois apenas 1 em 5 disse achar mais fácil se socializar mais facilmente jogando pelos sites do que na vida real enquanto 2 em 5 disseram que ele é uma grande alternativa para ajudar a escapar dos problemas pessoais e estresse do dia a dia.

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Vi com meus próprios olhos... mas dá pra confiar?

Alguns meses atrás um júri no Texas (EUA) julgou Timothy Cole inocente de uma acusação de estupro que o mandou para a prisão em 1986. A vítima o apontou como o responsável em 3 oportunidades, 2 vezes na delegacia e uma no julgamento. Cole foi julgado inocente agora pelo teste de amostras de DNA. O verdadeiro estuprador, Jerry Wayne Johnson confessou o crime em 1995. Infelizmente o inocente Cole morreu na prisão em 1999, muito antes de ser declarado inocente.

Um estudo publicado por professores da Iowa State University põe em cheque a credibilidade e o uso da identificação ocular tão usada pela Suprema Corte Americana. Recentemente Gary Wells e Deah Quinlivan na Law and Human Behavior, um jornal da American Psychology-Law Society, revelaram quão frequente essa injustiça ocorre. Das 224 pessoas nos EUA que foram erroneamente condenadas e depois inocentadas por amostras de DNA, 77% (ou 172) o foram por erros na identificação por testemunha ocular. Ou seja, os erros por esse método é sozinho responsável por mais condenações de inocentes do que todas as outras causas somadas.

Jennifer Thompson tinha 22 anos quando foi estuprada em 1984 e embora sob a terrível experiência ela tomou o cuidado de tentar gravar na sua memória todos os detalhes faciais e a voz do agressor porque se sobrevivesse poderia tentar ajudar na sua captura. Ela não só sobreviveu como identificou Ronald Cotton em pessoa na delegacia e depois ainda com alguma hesitação o reconheceu por foto dias depois. Em entrevista a uma rádio ela confirmou que essa certeza deu a ela segurança de que havia feito tudo corretamente. Certo? Errado! O inocente Cotton ficou 10 anos e meio preso injustamente até um teste de DNA apontar o grave erro e apontar o culpado Bobby Poole. Mas o mais estranho de como nossa mente funciona está no fato de que mesmo se preocupando em memorizar suas características, na primeira vez que ela viu Bobby Poole na corte, ela estava segura de que nunca o havia visto antes! Ela mesmo sabendo do horrível erro que cometera, admitiu que ainda via Ronald Cotton e não reconhecia o rosto do agressor!

Parece uma simplicidade, mas algumas mudanças simples são sugeridas pra que se reduzam esses erros, entre elas: mostrar as fotos das pessoas sequencialmente lembrando à pessoa que o suspeito pode não estar ali e se assegurar que aquele que conduz esse processo não tenha conhecimento de quem é o atual suspeito.

O ponto é que a maioria das delegacias não se preocupa em melhorar este sistema porque nunca ficou claro o tamanho da injustiça que vem sendo feita até então. Se lembrar que alguém pagou caro por um erro já é bastante duro, podemos dobrar o custo desse erro quando lembramos que, com ele, um culpado sai livre do processo.

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Vivendo fora e se virando como pode.

Assim como dizem que escrever um blog ajuda a escrevermos melhor (pffff...), todo programa de TV ou matéria de revista que falam sobre a experiência de se viver no exterior batem na mesmice dizendo que os contratantes gostam de candidatos de emprego que viveram no exterior porque essa prática demonstraria que essa pessoa acaba demonstrando assim maior independência e criatividade para resolver novos problemas e desafios. Mas será que é verdade?

Eu acredito em RH do mesmo modo que acredito em Feng Shui e aromaterapia. Acredito em eficiência de entrevista e dinâmica de emprego na mesma intensidade que acredito em vitamina C contra resfriado, ou seja, não acredito em nada disso! E também nunca botei fé nessa de que viver fora me faria mais criativo. Não acredito nisso.

Mas eis então que um estudo com 210 estudantes universitários publicado no Journal of Personality and Social Psychology com 2 experimentos tenta comprovar essa tese. Em um eles ofereciam uma vela, uma caixa de fósforos e algumas taxinhas pedindo uma tarefa simples para que os sujeitos dispusessem tudo de uma forma a prender a vela sem que a cera derretida caísse no chão. Para surpresa dos pesquisadores 60% dos que moram ou moraram fora contra apenas 42% sem essa experiência souberam solucionar. Em outra tarefa as pessoas tinham que desenhar alienígenas e novamente os que viveram em outro país apresentaram desenhos mais, digamos, criativos.

Outro estudo interessante com 72 americanos morando em seu país e com 36 estrangeiros morando nos EUA tentava avaliar a criatividade em uma situação de negociação. Aos pares eles tinham que chegar a um acordo fazendo o papel de comprador e vendedor de um posto de gasolina. Quando ambos viviam fora, 70% chegaram a um acordo, quando ambos não tinham tido essa experiência, não houve acordo algum! Zero!

Confesso que os experimentos não me convenceram 100% e não é porque vivendo fora você correria maior risco de ter a luz cortada e teria então que apelar para luz de vela. E tampouco no exterior há mais ETs! Aliás, até já disse aqui onde há mais ETs! O ponto é que no estudo há certa divisão de americanos com estrangeiros que pode influenciar, mas não é difícil aceitar que se os benefícios de morar fora forem esses mesmo, apenas cruzar a Ponte da Amizade no Paraguai ou passar alguns dias fazendo sacolão em Miami não seria suficiente! Você teria mesmo é que viver fora!