
Lembro que não faz muito tempo vi
uma reportagem que mostrava um daqueles pesquisadores com um estudo que prometia provar a superioridade intelectual de um dos sexos. O estudo picareta mostrava que no futuro o mundo seria dominado pelas mulheres porque numa bateria de 9 testes elas se sobressaíram em 6, justamente os que supostamente seriam mais determinantes para a humanidade num futuro não distante. Algumas pessoas saudavam isso como um alento, uma coisa boa, uma prova de que o homem não é melhor do que a mulher, ele seria, aliás, pior. Eu vi aquilo como uma pesquisa tonta porque era muito superficial. Mas eu fiquei é imaginando onde o cara iria arranjar financiamento ou rede de televisão dispostos a divulgar um resultado diferente, onde em 8 dos 9 testes os homens se saíssem melhores e que assim nós então teríamos é que nos acostumar e iríamos sim esperar e ver mulheres saindo cada vez mais de cena.
Seria isso possível? Duvido! Mas bem antes desse estudo mais uma vez uma grande autoridade do mundo acadêmico falou algo relativo ao tema de modo que acabou sendo mal interpretado e teve que se explicar porque alguns radicais ouvem o que querem, inventam e atribuem frases não ditas. O nosso ex-presidente FHC nunca disse “esqueçam o que eu escrevi”, mas até hoje lhe cobram explicação. Pois o presidente (ou reitor) de Harvard
teria sugerido alguns anos atrás que haveria uma diferença inata entre homens e mulheres que faria com que aqueles se sobressaíssem quando comparados com elas nos campos da matemática, ciências exatas e engenharia.
O maior erro do reitor de Harvard, Lawrence H. Summers, talvez tenha sido mesmo a questão do exemplo negativo dado às futuras estudantes, pois se uma autoridade dessas diz isso, fica mais difícil (mas não impossível) convencer e incentivar a sua sobrinha de que ela pode ser uma grande física nuclear, por exemplo. Mas daí querer a cabeça dele como já se quis também a de outros acadêmicos que deram declarações semelhantes é um abuso!
Qualquer declaração do gênero é infeliz, politicamente incorreta, mas não de todo errada se você analisa o que foi dito. Vale lembrar que o mesmo incômodo que há com a baixa presença feminina nestas áreas, não gera o mesmo desconforto em outras áreas reconhecidamente “delas”. Mas voltemos.
O reitor Summers deu 3 motivos principais para a grande desproporção entre os gêneros, mas foram ignoradas por muitos dos ouvintes. A primeira é que por causa da maternidade há naturalmente menos mulheres dispostas à dedicação acadêmica. Uma segunda razão dada por ele e que ainda desperta os instintos mais primitivos nos críticos é dizer que há muito mais garotos entre os estudantes de altas notas em matérias exatas nos colégios. Isso não é opinião, são números. Se isso serve de consolo, há muito mais garotos também com as piores notas, ou seja, a distribuição das notas entre as mulheres é mais concentrada, as dos meninos mais distribuídas aos extremos, mas as médias são muito similares. E o terceiro fator seria finalmente um preconceito nas universidades que ele julga ser o menos decisivo por uma lógica válida, as mulheres já são minorias na amostra das melhores notas antes de entrarem nos cursos dessas áreas. Ou seja, ele não quis dizer que o homem é melhor do que a mulher, mas que há uma questão inata para que nós homens sejamos maioria nesses cursos.
Falou besteira? Não mesmo.Alguns estudos já tentaram entender e explicar o porquê de haver mais homens que mulheres. Elas são muitas e podem ir
do temperamento à
pura discriminação. Mas uma recente pesquisa do
National Bureau of Economic Research Working Paper relacionando o gênero e os resultados acadêmicos na Academia da Força Aérea Americana (
U.S. Air Force Academy), entretanto, encontrou dados muito interessantes para aqueles que tentam estudar o assunto.
O estudo feito pelos economistas Scott Carrell e Marianne Page da Universidade da Califórnia e pelo colega deles, James West da
U.S. Air Force Academy (USAFA), encontrou que trocando um instrutor homem por uma instrutora mulher há um efeito extremamente significativo para reduzir a diferença entre os sexos.
O trio de economistas examinou 9481 cadetes graduandos que foram alunos de 250 diferentes instrutores de ciências e matemática na USAFA de 2000 a 2008. Se mulheres alunas de professoras se saem melhor (ou pior) seria porque os professores atraem melhores (ou piores) alunos ao invés de ensiná-los melhor? Seria porque professoras facilitariam as provas para que as alunas mais fracas

se saiam melhores? Seria ainda algo completamente diferente?
Vejamos, na USAFA o currículo, os protocolos e as provas e testes são extremamente rígidos, o que deu aos pesquisadores condições ótimas para o estudo porque tudo era padronizado, igual para todos os alunos. Além disso, os alunos são distribuídos aleatoriamente entre os diferentes professores, sendo assim, não há chance de escolha para o aluno (homem ou mulher) escolher o professor ou o sexo deste.
O que os economistas viram foi que as mulheres obtêm notas 0,15 (metade da diferença entre um A+ e um A-) menores do que os homens. Mas aí vem o interessante. Essa diferença é maior quando a aluna tem um professor homem, mas quando a instrutora é mulher, a diferença cai em 2/3! No lado masculino, os homens com instrutores homens também tinham notas melhores do que aqueles com instrutoras, mas essa diferença não era tão grande.
Ou seja, os pesquisadores atribuem boa parte da diferença de desempenho entre os sexos na USAFA pelo fato de que apenas 23% das turmas têm instrutores mulheres. Para estes estudantes, elas acabam reduzindo muito a diferença nas notas e desempenho, muito mais pelo fato das mulheres terem notas maiores do que pela dos homens estarem pior.
Mas outro ponto importante é que ter um instrutor homem para uma aluna não é decisivo apenas nas notas ou em sua formação no primeiro ano, isso porque o quão bem elas se saem em seu ano introdutório para elas indica as chances de se obter futuramente um título acadêmico.
Mas, afinal, por que ter uma instrutora muda tanto o desempenho das alunas? Seria porque ver uma mulher naquela posição seria encorajador? Se fosse apenas isso, já saberíamos o que é necessário para cada gênero se sair melhor, mas acontece que o estudo também viu que com alguns professores homens não há aumento da discrepância entre gêneros e com algumas instrutoras as alunas tampouco acabam saindo-se bem. Ou seja, alguns homens são muito bons ensinando mulheres, então apenas um suposto modelo feminino não explicaria o resultado.
O que faria então desses homens bons professores? Atribui-se a alguns o fato de por terem filhas, serem também bons mentores e de alguns outros terem uma
empatia desenvolvida para desafios que as alunas têm que enfrentar na vida. Seria isso mesmo? Ou um estilo diferente de ensinar explicaria tudo? O estudo não se baseou nos professores e suas metodologias, então a pergunta fica ainda sem resposta.
Sendo assim, um dos pilares para se combater uma presença feminina menor nesses campos é entender justamente o que faz de um professor (seja ele homem ou mulher) mais efetivo com alunas. O problema é você cair na solução simplista de começar apenas a contratar professores mulheres para resolver o “problema”. Assim você cai na burrice e racialismo das cotas. Para contratar mulheres professoras você terá assim que deixar homens competentes do lado de fora tão somente porque eles são... homens! E não há causa que justifique isso uma vez que nenhuma mulher pode ser deixada também de fora por ser mulher.
Por outro lado não adianta acharmos que ser “bonzinho” com as alunas ajudaria, já que a questão da razão não está respondida. Talvez uma medida simples seja deixar claro que a diferença entre um A- ou B+ não é o que determina o seu futuro acadêmico como muitas mulheres exigentes acreditam hoje. O que podemos concluir é que ajudando de maneira meritocrática a se reduzir a diferença é algo essencial caso queiramos nesses campos de atividade uma proporção mais homogênea entre os gêneros.
Mas não custa reforçar, sem cotas!